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quinta-feira, 21 de julho de 2011

Entrevista do Prof. Mauro Koury sobre Sujeira em Recife para o Diário de Pernambuco

Entrevista por e-mail do Professor Mauro Koury (MK) dada à jornalista Isabelle Barros (IB), repórter do jornal Diário de Pernambuco – Revista Aurora, do Recife, Pernambuco, em 05 e 06 de julho de 2011. A matéria da Isabelle Barros foi editada no domingo, 17 de julho de 2011, e pode ser lida no link: www.diariodepernambuco.com.br/aurora.    

O argumento inicial da matéria e convite: reportagem com o tema "porque o recifefede?" Essa é uma sensação que se instalou entre a população de todas as classes sociais, e gostaríamos de saber como esses habitantes lidam com isso. Essa pergunta já foi tão repisada por moradores e visitantes que a cidade ganhou o apelido de ‘Recifede’, ou ‘Recifezes’. Canais fétidos, ruas insalubres, esgotos a céu aberto e fossas estouradas se naturalizaram na paisagem olfativa da população. Mas, além da esfera do humor, como essa fedentina afeta a relação da cidade com as pessoas que estão nela? Que estratégias as pessoas usam para conviver com isso?”. Vi o resultado da enquete Sujeira e Imaginário Urbano no Brasil, com dados sobre Recife, e achei que esse assunto tinha muito a ver com a matéria que estou escrevendo. Seria excelente se o senhor pudesse contribuir.

A entrevista completa:

IB -    É possível fazer um pequeno retrospecto de como a pesquisa foi criada e quais seus objetivos? A resposta dos questionários era espontânea ou estimulada?

MK - A pesquisa foi realizada no interior de uma pesquisa maior do GREM - Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções / UFPB, que coordeno e que discute os Medos Corriqueiros e a Sociabilidade Urbana nas 27 capitais de estados brasileiros (incluindo Brasília). Muitos entrevistados para a pesquisa Medos utilizaram os termos sujo e sujeira nas narrativas sobre seus medos e receios, e os termos eram usados de uma forma muito geral, denominando desde odores ou excrementos e lixo até  conotações sobre cidadania e ética na política, e despertou o meu interesse como pesquisador para saber mais a fundo a que os termos sujo e sujeira utilizado se referia.
Assim, foram feitas duas questões em uma pesquisa tipo enquete que, junto com perguntas relacionadas com a caracterização dos entrevistados, buscavam interrogar os informantes sobre a questão específica sobre os sentidos atribuídos aos termos sujo e sujeira. As perguntas foram: o que é sujo e sujeira para você? E o que você indica como sujo e sujeira?
Esta enquete foi aplicada em seis capitais: João Pessoa, Recife, Belém, Brasília, São Paulo e Curitiba em um total de 390 questionários. 90 para São Paulo e 60 para as demais capitais.
As perguntas eram abertas e sobre ela os entrevistados tinham a liberdade de definir e narrar situações e experiências sobre o sujo e a sujeira tendo sua cidade e o Brasil como cenário. O entrevistador apenas interrogava cenários narrados não muito claros nas falas dos informantes e buscava uma precisão e compreensão de termos usados e a que se referiam, quando necessário.

IB - O fato de o Recife ser fedorento não é exclusividade da cidade, mas não consegui encontrar nenhum outro local onde comentários jocosos e apelidos estivessem lado a lado com frases revoltadas, como algumas que vi no post sobre a pesquisa: "cidade do Recife é o esgoto de Pernambuco"; "a gente pula excrementos e lixo ao andar pela cidade". Esse traço de autoironia foi encontrado em mais alguma das cidades pesquisadas?

MK - Dois pontos a esclarecer antes de responder a questão. Primeiro, o termo "recifede" é um termo jocoso cunhado e aplicado durante campanhas políticas para prefeitura e governo estadual nos finais dos anos setenta. O termo retratava o uso de falsas propagandas morais para atacar candidatos da oposição, indo até ao sequestro e simulação de fotos intima com a esposa de um candidato e um político local e situações do gênero. O termo falava de um lado ambíguo da falta de infraestrutura da cidade associado à falta de ética na política local; Segundo, a enquete sobre sujeira foi aplicada durante uma crise política vivida logo nos primeiros meses do mandato do atual prefeito João da Costa: a crise da renovação do contrato sem licitação da empresa que recolhia o lixo da cidade, rejeitada pelo tribunal de contas e que se arrastou por vários meses seguidos, vindo, logo após uma nova crise sobre o aterramento sanitário.
Assim, mais uma vez o uso ambíguo do "Recifede" foi usado em uma crítica ao acumulo de lixo por toda a cidade, e principalmente o centro e bairros dos subúrbios mais distantes, associados à crítica à política local, e especial ao prefeito João da Costa e ao embate entre João da Costa e o ex João Paulo, tendo o problema do lixo como marco de discussão e jocosidade (lembrar do boneco João Lixão, por exemplo).
Por outro lado, é verdade que os entrevistados de outras cidades também deram ênfase nas respostas de suas cidades como suja. A cidade de Belém (Pará), por exemplo, é uma delas; a de Salvador (não retratada na pesquisa é outra). Embora com críticas acirradas sobre a sujeira e o odor das cidades, o grau de jocosidade é menor, se comparado ao Recife, durante a pesquisa.
Nas demais cidades associam a falta de infraestrutura, seja na coleta do lixo, seja no tratamento do lixo, seja no esgotamento sanitário de uma forma mais direta, sem a jocosidade do recifense. Embora, no momento da pesquisa, devido à crise do lixo e ao início de uma nova gestão da cidade (vista pelos moradores como continuidade da gestão anterior) a cidade do Recife apareça com 23,3% de indicações para a questão da falta de infraestrutura urbana e sanitária na cidade, contra 6,7% em João Pessoa; 8,3% em Curitiba; 10% em São Paulo; 10% em Brasília e 11,7% em Belém. Os informantes das seis cidades que a indicaram associaram a sujeira aos problemas de saneamento básico; esgotamento sanitário; condições das vias expressas (calçadas, ruas e avenidas) em relação à sua conservação e à limpeza e depredação (buracos, calçadas quebradas, lixo sem coleta regular, canais a céu aberto que servem como escoamento dos detritos sanitários, etc.). Falam assim do DESRESPEITO AOS CIDADÃOS e associam assim a sujeira ao mau uso da administração pública local (de cada cidade), e nacional.
Outro foco de que se entende e indica por sujeira fala também da FALTA DE EDUCAÇÃO e CIDADANIA dos habitantes de cada cidade, e está presente a associação do sujo a Moral. 15% dos respondentes do Recife informaram sobre falta de higiene doméstica e os fluídos como elementos responsáveis pelo descaso da população com o público, comprometendo, inclusive, à saúde pública: caso dos escarros nas ruas, das cusparadas, do jogar lixo pelas calçadas, pelos rios e canais da cidade, do fazer necessidades fisiológicas pelos postes, muros e calçadas, são vistos como problemas públicos que tem origem no privado. Mas também associam a falta de cidadania ao declínio da educação pública e privada no país. Comparando com as demais cidades pesquisadas, os índices para essa associação sujeira moralidade, isto é, a indicação do uso público das faltas privadas, assim se coloca: 15% Recife, contra 30% João Pessoa; 15% Belém; 13,3% São Paulo; 38,3% Curitiba e 20% Brasília.
É bom frisar que a questão da sujeira é ligada às questões da pureza-impureza, e sempre indica alguma desordem (sujeira) em relação à ordem (limpeza, pureza, organização) e as respostas dos respondentes em suas narrativas falam dessa  relação, associando ao desordenamento provocado pelo sujo e aos receios por ele provocados na vida social cotidiana e na vida pessoal diária.  

IB - Qual é o balanço comparativo entre as seis cidades que participaram da pesquisa? Em que pontos o Recife se destacou?

MK - Respondida acima

IB - No post, há uma frase que me chamou a atenção: alguns “entrevistados (…) associam o viver na cidade de Recife com o viver na sujeira. Este é um problema que sempre marcou o imaginário recifense: o Recife como uma linda, porém, mal cuidada cidade”. É possível explicar isso com um pouco mais de detalhes? Desde quando esse imaginário teria surgido?

MK - A sujeira no Recife, para os entrevistados, está associada de um lado, ao desordenamento urbano e a falta de infraestrutura da cidade para suportar as intempéries, por exemplo, quando as ruas são alagadas, as águas em vez de escorrerem são jorradas para fora dos bueiros que, junto com os esgotos a céu aberto, ao lixo acumulado, ao mau cuidado das ruas e avenidas, etc.; e de outro, ao problema da falta de educação doméstica (e formal), gerando o mau uso do espaço público e colocando em perigo todos os moradores.
Como falei acima, a origem da cidade como uma cidade que fede, do "Recifede", veio em parte da associação da sujeira como falta de ética na política, coligada ao problema da infraestrutura urbana local. Por outro lado, esta associação vem adjunta a outras categorias, como a do preconceito, principalmente com a mendicância e a pobreza, visto como sujos. No caso do Recife, essa associação vem de muito tempo, desde os anos sessenta, quando Recife era um pólo aglutinador de migração dos demais estados da região Nordeste e do Norte, e cresceu, durante os anos setenta, com a migração intensa do campo para a cidade, com a modernização da agroindústria na Mata e da produção extensiva de gado no Agreste. 11,7% dos recifenses entrevistados fizeram essa associação contra 10% em João Pessoa; 6,7% em Belém; 10% em São Paulo; 6,7% em Curitiba e 11,7% em Brasília. 
Outra relação à sujeira foi feita à questão da homossexualidade. Vista como algo sujo. Em Recife, 6,7% a indicaram, contra 6,7% de João Pessoa; 13,3% de Belém; 5,6% São Paulo; 1,7% Curitiba e 5% Brasília.
Por outro lado, a questão da ética política como sujeira representa um percentual alto nas narrativas sobre sujeira entre os respondentes: 43,3% dos recifenses, contra 23,4% João Pessoa; 38,4% Belém; 21,1% São Paulo; 18,3% Curitiba e 35% Brasília. Não é prá menos que a cidade do Recife é vista como uma cidade crítica em relação à política e aos políticos. Mais uma vez, a sujeira como política, diz do jocoso "Recifede": que apontam, desde ao 'esquecimento' de promessas de campanha, comparando a prática política como de interesse pessoal e a "podridão da política", no dizer de um entrevistado; até ao descaso com o dinheiro público e a corrupção. 

IB - Na visão dos entrevistados, os culpados pela “fedentina” da cidade se dividem entre a esfera pública e a própria população. Houve alguma iniciativa de algum entrevistado em se falar de soluções?

MK - Não houve nenhuma iniciativa concreta de mostrar soluções. A grande maioria das respostas apenas apresentou indignações e, pior, desesperança.

IB – Me envie alguns dados pessoais, e muito obrigado pela gentileza de responder às questões.

MK - Sim, alguns dados pessoais: sou professor doutor em Sociologia e coordeno a base de pesquisa UFPB-CNPq intitulada Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções (GREM) e sou docente ligado ao Departamento de Ciências Sociais e ao Programa de Pós-Graduação em Antropologia da UFPB.
Eu que agradeço!

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quinta-feira, 29 de julho de 2010

RBSE - Revista Brasileira de Sociologia da Emoção - Novo Número no ar!

CONVITE!

Convidamos aos amigos visitarem o último número da RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, v. 9, n. 26, de agosto de 2010 - ISSN 1676-8965. A RBSE é uma revista eletrônica de acesso gratuito do GREM – Grupo de Pesquisa em Antropologia e Sociologia das Emoções. A RBSE pode ser encontrada no seguinte endereço eletrônico: http://www.cchla.ufpb.br/rbse/Index.html.

Este número conta com a colaboração de: Alessa Cristina P. de Souza; Bárbara Nascimento Duarte; Diego Zenobi; Ednei de Genaro; Georg Simmel; María Belén; Mauro Guilherme Pinheiro Koury; Norma Missae Takeuti; Thais Alves Marinho; Vergas Vitória Andrade da Silva; Wagner Lins Lira.

Cordialmente,

Mauro Koury

Editor

INVITATION!

We invite the friends to visit the last number of the RBSE - Brazilian Journal of Sociology of Emotion, v. 9, n. 26, August 2010 - ISSN 1676-8965. The RBSE is an electronic journal of free access of the GREM - Group of Research in Anthropology and Sociology of Emotions. The RBSE can be found in the following electronic address: http://www.cchla.ufpb.br/rbse/Index.html .

This issues count with the contributions of: Alessa Cristina P. de Souza; Bárbara Nascimento Duarte; Diego Zenobi; Ednei de Genaro; Georg Simmel; María Belén; Mauro Guilherme Pinheiro Koury; Norma Missae Takeuti; Thais Alves Marinho; Vergas Vitória Andrade da Silva; Wagner Lins Lira.

Cordially,

Mauro Koury

The Editor

quinta-feira, 18 de junho de 2009

Série Pesquisas em Desenvolvimento, n. 03 (18 de junho de 2009)

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Este Blog publica, hoje, o terceiro número da Série Pesquisas em Desenvolvimento e Recém Finalizadas. Esta Série tem por objetivo a publicação e a divulgação dos Resumos Expandidos das Pesquisas em Desenvolvimento ou Recém Finalizadas pelo corpo de pesquisadores do GREM.
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Nesta Série, que teve o seu número 01 publicado neste Blog em 12 de junho de 2009, e o segundo publicado em 15 de junho de 2009, serão postados resumos individuais dos pesquisadores com um informe sobre suas pesquisas e uma pequena bibliografia referencial de apoio. Será informada, também, a linha de pesquisa do GREM a que estão vinculadas.
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O número 03 da Série Pesquisas em Desenvolvimento publica o Resumo Expandido da tese do pesquisador Luiz Gustavo Pereira de Souza Correia. O resumo apresentado neste 3º número da Série de Luiz Gustavo teve como objetivo a obtenção do título de Doutor em Antropologia Social pelo Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, em 2007. A pesquisa de Luiz Gustavo faz parte da linha de pesquisa Memória e Imaginário Social do GREM.
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Vamos, então, para o terceiro número da Série Pesquisas em Desenvolvimento e Recém Finalizadas.
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Título da Pesquisa Concluída: “A pupila dos cegos é seu corpo inteiro”: compreendendo as sensibilidades de indivíduos cegos através das suas tessituras narrativas

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Pesquisador: Luiz Gustavo Pereira de Souza Correia

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Resumo: Minha pesquisa de doutoramento, defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da UFRGS (CORREIA, 2007), nasceu como desdobramento de alguns questionamentos manifestados ainda durante o processo de feitura da minha dissertação de mestrado em Sociologia (CORREIA, 2002) - apresentada na UFPB sob orientação de Mauro Guilherme Pinheiro Koury - com o aprofundamento de algumas discussões e análises dentro do campo teórico da Antropologia Urbana e das Emoções. A cidade como ambiente de vínculos e enraizamentos de memórias individuais e coletivas, intercâmbios de sentidos e experiências, é o espaço das minhas inserções, a fonte das minhas inquietações antropológicas.
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Procurei compreender as vivências dos processos simbólicos e as interpretações pessoais sobre a perda da visão via narrativas de indivíduos cegos habitantes de Porto Alegre, capital do Rio Grande do Sul. Vinculadas a essa configuração temporal-espacial e simbólica estão as sensibilidades individuais e as suas expressões reveladas nas narrativas. A proposta foi investigar as camadas temporais simultâneas e distintas emaranhadas e recompostas nas memórias pessoais tecidas pelas narrativas dos sujeitos. Dessa forma, a tese se apresenta como uma síntese dos diálogos com esses diferentes personagens, a constante busca por articulação e troca de informações com essas outras percepções que povoaram minhas passagens em campo.
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O texto final da tese reflete as tentativas de compreender as interpretações pessoais dos sujeitos em interação com o espaço e com outros tantos personagens constituintes da cidade. Na busca por tornar mais fácil de entender alguns dramas humanos (ELIAS, 1995), se revelam os agentes enraizados na configuração social dada e as relações intersubjetivas vinculadas ao espaço e ao tempo vividos em sociedade. A montagem das experiências recontadas justapõe processos e rupturas pessoais contextualizadas pelas temporalidades citadinas, através das construções narrativas como elaborações onde os tempos das vivências e apreensões subjetivas se recompõem. Estas tensões, conflitos, articulações e rearranjos descobertos possibilitaram a ampliação dos sentidos das individualidades que planejava investigar em minhas primeiras caminhadas pelas ruas da cidade.
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O meu interesse foi mostrar a relação estabelecida entre as pessoas cegas “no” e “com” o seu espaço de vivência através de suas interações e articulações sociais na cidade. Parto do pressuposto do espaço vivido e apreendido afetivamente como lócus de configuração e enraizamento da memória pessoal e social dos sujeitos que nele convivem e da composição das diversas temporalidades nas trocas intersubjetivas urbanas. Penso, a partir das reflexões de Maurice Merleau-Ponty, que “não se deve dizer que nosso corpo está no espaço nem tampouco que ele está no tempo. Ele habita o espaço e o tempo” (1994, p. 193). É através do corpo como efetivação de uma consciência, ou melhor, de uma experiência, que há a comunicação com o mundo e com os outros. Assim, a cidade, seus espaços e ritmos, conformam um ambiente de intercâmbio de experiências múltiplas, individuais e coletivas, coesas ou conflitantes, mas sempre dinâmicas, que podem ou não acompanhar o ritmo que é próprio ao lócus urbano. O meu interesse foi então descobrir os espaços e tempos vividos na cidade, e de que forma se configuram as memórias e identidades dos sujeitos através do enraizamento das suas experiências nos diversos cenários urbanos à disposição.
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Tais observações seguem o caminho da valorização do cotidiano, da dinâmica das práticas e relações pessoais cotidianas, como noção base para a compreensão dos sentidos em jogo nas ações humanas. Situo-me a partir das contribuições de pesquisadores que propõem novas percepções sobre a estética urbana, valorizando a reapropriação da cidade, entendida como re-significação simbólica dos espaços e dos ritmos pelos diversos grupos humanos. Tais pesquisas buscam compreender de que maneira os atores sociais vivenciam, tensionam ou subvertem os códigos de conduta e sociabilidade urbanos (KOURY, 2003, 2005, 2006; MAGNANI, 1998, 1999; ROCHA, 2001; entre outros).
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Em conjunto com essa apreensão teórica da cidade, ressalto a preocupação com o caráter intersubjetivo da experiência (RABELO & ALVES, 1999). De tal forma, a experiência ganha contornos de vivência necessariamente intersubjetiva, com base nos sentidos acionados nas práticas cotidianas, nas interações em que a individualidade se torna perceptível. As individualidades – em suas relações na dinâmica do jogo social – expressas nos discursos narrativos surgem como aspecto fundamental para a compreensão da vivência urbana. Assim, pretendo reforçar o argumento sobre as fragmentações e articulações possíveis na composição da cidade tal como apreendida pelos seus personagens.
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Buscar as interpretações pessoais é uma forma de compreender a relação do indivíduo com o mundo com que e em que interage. Não o mundo panorâmico, contemplativo, perspectivado pelo olhar passivo que percebe de maneira homogênea e totalizadora. O mundo vivido, no entanto, como “cenário da vida do corpo, morada de afetos” (PESSANHA, 2000), é um mundo de espaço singular, “povoado por lembranças, sítio de experiências colorido por emoções datadas” (Idem).
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As narrativas expostas na tese, como elaborações discursivas das experiências pessoais e do processo de individualização dos sujeitos, são interpretações e significados atribuídos à vivência pessoal sem a visão no quadro de referências compartilhado formado pela cidade de Porto Alegre. Os sentidos expostos nas narrativas de tais elaborações individuais revelam a heterogeneidade própria às conformações humanas na sociedade contemporânea e de que forma a auto-imagem se estabelece a partir do processo tenso e conflituoso de delimitação de fronteiras sociais. A construção textual de tais relatos aborda a cegueira como um elemento comum aos personagens, sem buscar a caracterização de uma identidade coletiva, a configuração de um grupo humano específico.
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Tendo o corpo como terreno dos sentidos articulados e intercambiados no contexto socialmente vivido, a relação fundante do mundo intersubjetivo, do eu em relação aos outros, é revelada nos termos das experiências narradas da vivência cotidiana da cegueira. Na medida então em que é “dimensão do nosso próprio ser” (STEIL, 2007), é no e pelo corpo que se efetivam e se inscrevem as experiências e os projetos, que se pode pensar em modalidade particular de ser no mundo. O corpo do indivíduo é o meio por onde circulam e são agenciados, em sua relação com o mundo, os sentidos destas configurações. É a condição do indivíduo experienciar, criar vínculos, deslocar-se e elaborar os significados em sua relação com o mundo.
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Assim, as narrativas são montadas priorizando as especificidades de apreensão das experiências dos sujeitos. Dessa forma, se tornam compreensíveis as tensões, os conflitos, os diálogos, as semelhanças e distinções nas percepções próprias das experiências dos sujeitos nas dinâmicas das comunicações, negociações e apreensões dos sentidos socialmente compartilhados da falta de visão. Deixando aberto a outras possibilidades interpretativas e expondo os caminhos percorridos para estruturar minhas próprias reflexões. As contextualizações das narrativas estão em jogo no próprio ato de narrar, e, assim, tentei por uma das interpretações possíveis trazê-las ao corpo da tese.
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Referências
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CORREIA, Luiz Gustavo Pereira de Souza. Imagem fotográfica e memória social: o Templo de Angola Xangô Catulho Onicá no Zambe através de um acervo particular de fotografias. (Dissertação de mestrado). João Pessoa: PPGS-UFPB, 2002.
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____________. “A pupila dos cegos é seu corpo inteiro”: compreendendo as sensibilidades de indivíduos cegos através das suas tessituras narrativas. (Tese de doutorado). Porto Alegre: PPGAS-UFRGS, 2007.
ELIAS, Norbert. Mozart – Sociologia de um gênio. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2005.
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KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Amor e dor – Ensaios em Antropologia Simbólica. Recife: Ed. Bagaço, 2005.
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____________. Medos corriqueiros e sociabilidade. João Pessoa: GREM/Ed. UFPB, 2005a.
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____________. Sociologia da emoção. Petrópolis: Vozes, 2003.
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____________. O vínculo ritual – Um estudo sobre sociabilidade entre jovens no urbano brasileiro contemporâneo. João Pessoa: Ed. GREM/ Ed. UFPB, 2006.
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LE BRETON, David. El sabor del mundo – una antropología de los sentidos. Buenos Aires: Nueva Visión, 2007.
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MAGNANI, José Guilherme Castor. Festa no pedaço: Cultura popular e lazer na cidade. São Paulo: UNESP/HUCITEC, 1998.
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____________. Mystica urbe – Um estudo antropológico sobre o circuito neo-esotérico na metrópole. São Paulo: Studio Nobel, 1999.
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MERLEAU-PONTY, Maurice. Fenomenologia da percepção. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
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PESSANHA, José Américo Motta. “Bachelard e Monet: o olho e a mão”. In: NOVAES, Adauto. (Org). O olhar. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
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RABELO, Miriam Cristina & ALVES, Paulo César. Experiência de doença e narrativa. Rio de Janeiro: Fiocruz, 2003.
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ROCHA, Ana Luiza Carvalho. “As figurações de lendas e mitos históricos na construção da cidade tropical” In: Iluminuras, nº 34, Porto Alegre: Banco de Imagens e Efeitos Visuais, PPGAS/UFRGS, 2001.
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sexta-feira, 22 de maio de 2009

1a Comunicação da enquete "Sujeira e Imaginário no Brasil - 2009" - Cidade de João Pessoa (PB)

O que pensam os moradores da cidade de João Pessoa, Paraíba, sobre o significado de sujeira
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Mauro Guilherme Pinheiro Koury
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Tem início, hoje, o primeiro informe sobre o que o brasileiro considera sujo ou sujeira. Esta primeira notícia mostra a tabulação para a cidade de João Pessoa, capital do estado da Paraíba, onde foram aplicados 60 questionários para a enquete sobre Sujeira e Imaginário Urbano no Brasil.
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Esta enquete foi realizada, neste ano de 2009, durante os meses de março a abril, em seis capitais de estados do país: João Pessoa (PB), Recife (PE), Brasília (DF), Belém (PA), São Paulo (SP) e Curitiba (PR), sendo aplicado um total de 390 questionários.
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A sua realização se deu durante o trabalho de campo para a coleta de dados para uma pesquisa maior, em desenvolvimento no GREM, sob a coordenação do autor, intitulada “Medos Corriqueiros e Sociabilidade Urbana no Brasil”. A questão do que é sujo relacionado à do que é medo apareceram várias vezes em entrevistas realizadas na primeira e na segunda fase da pesquisa ‘Medos Corriqueiros’ chamando sua atenção. Daí ter aproveitado um momento de treinamento e aproximação com os locais onde a nova fase da pesquisa sobre medos corriqueiros se daria, neste ano de 2009, para trabalhar a questão do que é sujo ou sujeira para os habitantes das capitais dos estados brasileiros.
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Os resultados desta inquietação traduzida em uma enquete simples aplicada a seis capitais de estados do país estão sendo trabalhados em forma de artigos que deverão ser publicados, em breve, na RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, do GREM, e em outras revistas científicas ligadas às áreas de Sociologia e de Antropologia nacionais ou internacionais. Este Blog divulgará, em primeira mão, os gráficos iniciais da tabulação desta enquete, sem ainda uma análise aprofundada sobre o assunto; o que deverá ocorrer em breve com o amadurecimento e publicação dos artigos em andamento.
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A decisão de divulgar os primeiros dados tabulados neste Blog, em uma série de notícias e pequenos comentários, foi o de chamar atenção ao leitor para a importância da categoria Sujo ou Sujeira no Brasil urbano. Como se pode notar na tabela abaixo, através da idéia do que é sujo para o entrevistado, se passa em revista a questão nacional. Na categoria Sujo ou Sujeira encontra-se relacionados desde a questão da falta de ética na política e no trato da coisa pública, até o uso tradicional de falta de higiene.
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Uma análise do país em termos de cultura política, de medos e receios, e de costumes, através da idéia dos informantes sobre o que é Sujo, se torna possível e leva o leitor a um passeio no imaginário urbano nacional e nas vivências, reflexões e comparações emitidas pelos informantes que se dispuseram a responder a enquete.

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João Pessoa, Paraíba

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Como já foi informado acima, foram aplicados 60 questionários na cidade de João Pessoa, com a questão O que é Sujo ou Sujeira para Você? Os questionários foram aplicados nos Shoppings locais, nos centros de compras populares, no Parque Solon de Lucena, nas praias, todos locais de passagem ou aglomeração da população local em seu todo.
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Dos 60 questionários aplicados, 34 foram com mulheres (56,7%) e 26 com homens (43,3%), em idades que variaram de maiores de 15 anos a mais de 65 anos. E com renda familiar que também variava de menos de um salário mínimo até mais de quarenta salários mínimos. Os entrevistados também variavam em nível de instrução, indo do analfabeto até os pós-graduados (especialização, mestrado e doutorado), trabalhando nos mais diversos tipos de ocupação, de desempregados e donas de casas, de ambulantes a empresários, de comerciários a profissionais liberais, entre outros.
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O primeiro gráfico (Gráfico 1) inserido nesta comunicação se refere, apenas, às categorias presentes sobre o que é Sujo ou Sujeira para a totalidade das respostas, independentes de quaisquer das variáveis acima. No segundo gráfico (Gráfico 2) são mostradas as categorias do Sujo ou Sujeira cruzadas com o Sexo do entrevistado. As demais variáveis não são expostas neste informe sobre o que é sujo para os habitantes da cidade de João Pessoa.



Uma Leitura Rápida dos Gráficos

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O Gráfico 1 demonstra as principais categorias de respostas dos entrevistados para a pergunta 'O que é sujo ou sujeira para você?' Como se pode notar em uma primeira leitura do Gráfico 1, as categorias nele presentes podem ser resumidas em outras tantas categorias maiores. Assim, é possível juntar em uma mesma categoria analítica as categorias que expressam noções de sujo ligadas à violência urbana (5% das respostas), ao desrespeito ao cidadão (6,7%) e a saúde pública, através dos Fluídos (13,3%). Esta categoria maior poderia ser chamada de Males do Urbano e responderia por 25% das respostas dos entrevistados. Através dela os entrevistados responderiam pelo elevado índice de perigo do viver na cidade de João Pessoa, seja pelo aumento da criminalidade (assaltos, estupros, e outras formas violentas), seja pelos problemas ligados a falta de saneamento da cidade (problemas de esgotamento sanitário, lixo urbano, mau trato das vias públicas, problemas de iluminação entre outras questões), seja, ainda, pela questão dos fluídos (odores ligados a poluição e outros).
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Uma segunda grande categoria poderia ser pensada através da denominação de Preconceitos. Esta grande categoria Preconceitos englobaria as ligadas a Homossexualidade (com 6,7% das respostas) e a da pobreza como algo obsceno, presente na categoria de Mendigos, Gente Pobre e Gente Suja (10%). Pobreza e opções sexuais não heterossexuais sendo consideradas como uma coisa suja, ou como portadoras de sujeira em si, pelos entrevistados de João Pessoa. A categoria maior Preconceitos, deste modo, responde por 16,7% das respostas sobre o que é sujo para os habitantes da capital paraibana.
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A categoria Imoralidade (11,6% das respostas), por sua vez, fala da pornografia, dos relacionamentos amorosos e sexuais contemporâneos, vistos como safadeza pelos entrevistados, diz ainda da prostituição e da falta de valores morais entre os jovens de hoje. A esta categoria poderia juntar-se, também, a de Gente Fraca (5%), que considera como sujo as pessoas consideradas pelos informantes como sem perspectiva, e que se lançam no vício, seja através da bebida, seja através da droga e outros, como uma forma de saída pessoal. A estas duas será agregada a de Falta de Confiança (8,3%), que informa como sujo ou sujeira a traição, o ser corno, a deslealdade e a mentira, presentes na sociabilidade contemporânea com a individualização e o individualismo crescentes nas formas de sociabilidade advindas com o crescimento e complexificação da cidade, e com a perda de laços mais pessoalizados.
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No caso da cidade de João Pessoa, esse aspecto é sentido, principalmente, desde o final dos anos setenta e, sobretudo, dos anos oitenta do século passado, como o crescimento acelerado da cidade, causando temores e receios nos habitantes mais antigos da cidade que não mais reconheciam a própria cidade, agora dominada por pessoas de diversas origens, sociais e econômicas e espaciais (de outras localidades do estado, do país e do exterior), e não reconheciam mais a si próprios: se colocando como prisioneiros de sua própria casa, com medo de andar pela cidade, de ter a casa invadida, do esfacelamento dos laços de sociabilidade e pessoalidade que os uniam até a pouco tempo, e da perda de confiança em si e nos outros. A esse respeito ver a análise do autor no livro De que João Pessoa tem Medo? (João Pessoa, Editora Universitária, 2008).
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A grande categoria que engloba as de Imoralidade, Gente Fraca e Falta de Confiança, poderia ser aqui chamada de Males da Modernidade, e responde por 24,9% dos entrevistados da cidade de João Pessoa.
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As duas categorias restantes, a da Falta de Higiene e a da Falta de Zelo com a Coisa Pública, ambas com 16,7% das respostas dos entrevistados, são consideradas aqui como categorias abrangentes por si próprias. A primeira lida com a questão da higiene doméstica: a falta de limpeza, as panelas sujas, bichos peçonhentos e todos os tipos de insetos, entre outros. A visão de sujeira, nesta categoria, está diretamente relacionada aos maus cuidados com a limpeza doméstica, no sentido restrito ao interior da casa, bem como as pragas urbanas que, às vezes infestam a residência, também consideradas como falta de limpeza ou cuidados domésticos.
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A segunda categoria restante é a que mais surpreende nesta enquete. A categoria Falta de Zelo com a Coisa Pública fala diretamente contra a falta de ética existente na política e na administração pública brasileiras: elementos como a corrupção, como o desvio de verbas, a má aplicação dos recursos públicos, a utilização dos recursos públicos para fins pessoais dos gestores ou políticos, a má aplicação e o descaso com as políticas públicas no país, principalmente as ligadas à educação e à saúde, a questão da fome associada ao desvio de verba e a falta de interesse político dos gestores públicos e políticos no país, são algumas das informações que associam a política no país como politicagem e sujeira, pelos habitantes de João Pessoa que responderam a enquete.
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Comparação entre as respostas de homens e mulheres
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O Gráfico 2 abaixo, por sua vez, faz uma rápida comparação das respostas obtidas durante a aplicação da enquete entre os homens e as mulheres que foram abordados e se dignaram a responder o questionário.

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Nesta rápida comparação entre as respostas de homens e mulheres a questão sobre O que é sujo ou sujeira para você, feita aos habitantes da cidade de João Pessoa na enquete sobre sujeira para a pesquisa ‘Medos Corriqueiros’ do GREM, sobressai que a questão da falta de higiene doméstica é associada mais a sujeira pelas mulheres, com 20,6% das respostas, do que pelos homens, com 11,5% das réplicas. A questão da falta de moral e a imoralidade como um dos males da modernidade também é uma categoria apontada em maior número pelas mulheres (14,7%) do que pelos homens (7,7%).


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O mesmo acontecendo com a categoria da violência urbana, com 5,9% de respostas das mulheres, e 3,9% das dos homens. E em relação à questão dos vícios (drogados, bêbados e outros) englobados na categoria de Gente Fraca: com 8,8% de respostas femininas, contra nenhuma resposta masculina.


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Na questão dos preconceitos associando pobreza e homossexualidade à sujeira, por outro lado, os homens se revelaram mais preconceituosos do que as mulheres: 11,5% dos homens ligam a homossexualidade à sujeira, contra 2,9% das mulheres; e, 11,5% dos homens associam pobreza (mendicância, gente pobre, gente suja) a sujeira, versus 8,8% das mulheres entrevistadas.
Os homens comparam a falta de confiança (traição, deslealdade, mentira) à sujeira em maior número (11,5%) do que as mulheres (5,9%). Os fluídos (gases, sangue, sangue menstrual, esperma, mau cheiro, odores da morte), por sua vez, encontram- se mais associados à sujeira nas respostas dos homens (15,5%) do que nas réplicas femininas (11,8%).


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Comparando, por fim, as respostas entre homens e mulheres em relação à categoria do Desrespeito ao Cidadão, se vê que as respostas masculinas (7,9%) e femininas (5,9%) quase se equivalem em relação à falta de respeito aos direitos e ao bem estar do cidadão na cidade de João Pessoa como algo sujo, como sujeira.


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Finalmente, a última categoria, a da Falta de Zelo com a Coisa Pública como algo sujo, como uma referência crítica ao mau uso da política e da gestão pública no país, teve uma grande incidência de respostas tanto dos homens (19, 2% das respostas), quanto das mulheres, com 14,7% das indicações.
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Notas Finais
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A categoria sujeira, como visto, é uma categoria importante para refletir e compreender o comportamento e o pensamento social do brasileiro urbano sobre o Brasil e sobre o imaginário do que é considerado sujo na vivência cotidiana dos habitantes das capitais de estados pesquisados.
Este informe sobre a enquete sobre Sujeira e Imaginário Urbano no Brasil na cidade de João Pessoa, abre uma série de comunicações sobre as primeiras tabulações das respostas auferidas a ela, abordando o pensamento sobre o que é sujo ou sujeira nas cidades de Recife, Belém, Brasília, São Paulo e Curitiba.


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A última comunicação abordará o conjunto das cidades, traçando um perfil do que é considerado sujeira entre os brasileiros residentes nas cidades pesquisadas e estabelecendo uma comparação entre elas.

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Recife/São Paulo, maio de 2009
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