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terça-feira, 26 de maio de 2009

2a.Comunicação sobre a enquete "Sujeira e Imaginário Urbano no Brasil - 2009" a cidade do Recife (PE)

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O que é sujeira ou sujo para os habitantes da capital pernambucana - 2009


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Mauro Guilherme Pinheiro Koury


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Neste momento damos continuidade aos resultados da Enquete "Sujeira e Imaginário Urbano no Brasil - 2009", aplicada em seis capitais de estados do Brasil entre março e abril de 2009. Como já se falou anteriormente na 1a Comunicação sobre esta enquete, ela é um subproduto de uma pesquisa maior em desenvolvimento no GREM, sob a coordenação do autor, intitulada "Medos Corriqueiros e Sociabilidade Urbana no Brasil". Para alguns resultados desta pesquisa ver Koury (2008, 2007, 2006 e 2005).

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Esta enquete surgiu como uma necessidade de averiguar o aparecimento da noção de sujeira usada por vários entrevistados na pesquisa Medos Corriqueiros, associada à noção de medo no urbano brasileiro contemporâneo.

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Assim, entrando na terceira fase da pesquisa Medos Corriqueiros, e na visita a várias capitais de estados brasileiros para o aprofundamento do questionário aplicado as 27 capitais de estados do país, em entrevistas personalizadas com pessoas que se dignaram a conversar com o pesquisador após terem respondido o questionário, se aproveitou a visita a estes estados e foi aplicada nas cidades de João Pessoa, Paraíba; Recife, Pernambuco; Belém, Pará; Brasília, Distrito Federal; São Paulo, São Paulo; e Curitiba, Paraná uma enquete sobre o que é sujo a 390 informantes das seis capitais assinaladas.

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Os resultados desta enquete estão em processo de tabulação, e este Blog ficou com a responsabilidade de divulgar os primeiros dados desta enquete. No dia 22 de maio de 2009 foram divulgados os primeiros dados da enquete para a cidade de João Pessoa, capital do estado da Paraíba. Neste momento, se divulga os primeiros dados da tabulação para a cidade do Recife, capital do estado de Pernambuco. Nas próximas semanas se divulgarão os dados para as demais cidades pesquisadas e culminará com um balanço comparativo entre as seis capitais onde a enquete foi aplicada.

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Como já se falou anteriormente, quando da divulgação dos dados iniciais para a cidade de João Pessoa neste Blog, não se tem intenção, neste momento, de uma análise mais aprofundada a nível teórico e metodológico da questão relacionada à noção de sujo ou de sujeira e sua vinculação com a noção de medo urbano, mas, de apresentar elementos que vislumbrem o alcance analítico e a riqueza dos dados conseguidos pela enquete para uma interpretação da cultura política no Brasil urbano de hoje. Uma análise mais acurada deverá em breve aparecer em forma de artigos a serem apresentados a revistas acadêmicas nacionais e internacionais, a partir do segundo semestre de 2009. O primeiro desta série de artigos deverá aparecer no número de dezembro de 2009 da RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção (v. 8, n. 24, dez. 2009) do GREM.



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Nesta série de comunicações para este Blog sobre cada cidade trabalhada na enquete haverá, apenas, um único cruzamento de dados. Tal como para a cidade de João Pessoa, para a cidade do Recife, bem como nas demais cidades onde a enquete foi aplicada, os informes para o Blog contarão, exclusivamente, com uma apresentação das categorias de respostas para a questão O que é sujo ou sujeira para você cruzada com a categoria sexo do entrevistado. As demais questões serão apresentadas no relatório final da pesquisa e na série de artigos acima mencionados.



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Portanto, para a cidade do Recife, como já o foi para a cidade de João Pessoa, será apresentado dois gráficos: o primeiro, apresentando as categorias para a questão O que é sujo ou sujeira sobre o total dos respondentes; e o segundo, cruzando as categorias sobre O que é sujo ou sujeira com a categoria sexo dos informantes.

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A enquete na cidade do Recife, Pernambuco

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Foram aplicados 60 questionários na cidade do Recife para a enquete "Sujeira e Imaginário Urbano no Brasil – 2009". Estes questionários foram aplicados em locais de grande movimentação da cidade, como os shoppings, universidades, as estações de metrô, a praia de Boa Viagem e o centro da cidade, durante dois dias de intensa atividade. Dos 60 informantes, 26 eram do sexo feminino e 34 do sexo masculino, com idades que variaram de mais de quinze anos a mais de oitenta anos. A escolaridade também variou do analfabeto ao pós-graduado (especialização, mestrado e doutorado), e as profissões foram as mais diversas, de desempregado a dona de casa, de ambulante a empresários, de diversas profissões liberais, a professores de todos os graus, políticos profissionais, membros das forças armadas, da polícia civil e militar, entre outras.



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O elenco de religiões dos entrevistados, também, variou entre a maioria católica, e uma gama de evangélicos, passando por espíritas, umbandistas até ateus. Como já se falou um pouco acima, nesta comunicação apenas se abordará a categoria sexo com as categorias apresentadas à questão O que é sujo.


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O que é Sujo para os Recifenses

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Aqui se apresenta o Gráfico 1 com a totalidade dos respondentes à questão O que é sujo ou sujeira para você. Este Gráfico 1 dispõe sobre as categorias apontadas pelos 60 entrevistados, independente de qualquer variável, para a questão mencionada. Como para a cidade de João Pessoa, e para as demais cidades que responderam a esta enquete, as respostas dos entrevistados foram listadas e depois tabuladas a partir de um conjunto de categorias retiradas das próprias respostas dos informantes à questão. Assim, chegou-se a uma série de categorias com que foram submetidas as 390 respostas dos entrevistados, possíveis e passíveis de serem comparadas em uma análise posterior, nas seis cidades em que a enquete foi aplicada.



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Na cidade do Recife, os 60 entrevistados apresentaram respostas com relação ao que consideram sujo, comparáveis com as de João Pessoa e demais cidades que constaram da amostra da enquete. Em relação a João Pessoa, uma nova categoria apareceu: esta nova categoria relaciona sujo ou sujeira à Falta de Consciência Ecológica. Esta nova categoria vem aparecendo em algumas outras capitais estudadas, mas não em todas, e está ligada a questão do desmatamento das matas e florestas, da poluição dos rios e do ar, ao aterramento dos mangues, enfim, a uma política de desenvolvimento que não leva em conta uma visão de sustentabilidade e, sim, a "uma visão de progresso pela ganância e destruição", de acordo com as palavras de um entrevistado, professor de biologia da rede pública municipal da cidade do Recife.



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O Gráfico 1, como já dito, representa as respostas da totalidade dos respondentes da cidade do Recife à questão O que é sujo para você. As sessenta respostas foram agrupadas nas categorias Desrespeito ao Cidadão; Falta de Confiança; Falta de Consciência Ecológica; Falta de Higiene; Falta de Zelo com a Coisa Pública; Fluídos; Gente Fraca; Homossexualidade; Imoralidade; Mendicância e Violência Urbana, como categorias associadas à sujeira ou ao sujo pelos entrevistados. De acordo com o Gráfico 1, a categoria que foi mais indicada pelos entrevistados em recife foi a do Desrespeito ao Cidadão, com 23,3% das respostas.


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A categoria Desrespeito ao Cidadão é uma categoria que engloba respostas associadas à qualidade de vida dos habitantes da cidade, e onde se vê respostas ligadas desde aos problemas de saneamento básico, de esgotamento sanitário, de falta de infra-estrutura de transportes públicos, das condições das vias expressas (calçadas e ruas e avenidas), da iluminação pública e, principalmente, da condição de higiene da e na cidade. É sobre a indicação da sujeira associada à falta de higiene na cidade do Recife que as respostas dos entrevistados apontam com maior frequência.



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"Cidade imunda", com "lixo pelas ruas"; a "cidade do Recife é o esgoto de Pernambuco"; "a gente pula excrementos e lixo ao andar pela cidade", são algumas das respostas dos entrevistados que associam o viver na cidade de Recife com o viver na sujeira. Este é um problema que sempre marcou o imaginário recifense: o Recife como uma linda, porém, mal cuidada cidade. No entanto, no momento da aplicação do questionário, como até o momento atual, a cidade vive um problema conjuntural grave com o problema do lixo urbano. Desde que o atual prefeito da cidade assumiu a gestão da cidade, em janeiro de 2009, que o lixo urbano não tem sido recolhido regularmente, estando a cidade com um acúmulo grande de detritos e entulhos por toda à parte, principalmente, nos bairros mais periféricos e nos morros da cidade, onde moram a população mais pobre.



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A construção de um boneco apelidado de "João Lixão", por uma comunidade de moradores de um bairro periférico, ligado ao nome do prefeito da cidade João da Costa, que faz visita periódica ao acumulo de lixo nas ruas da cidade, tem sido o elemento de humor (trágico) a esta questão. A mídia, por seu turno, não se cansa de especular em relação ao problema do lixo na cidade, que é assunto em todos os bares, esquinas, cafés, filas de banco e outras, metrô e ônibus, ou onde se encontre mais de um recifense reunido. O prefeito por seu lado pede mais um tempo para resolver a questão, mas esta é adiada e, na nas duas primeiras semanas do mês de maio de 2009 deu para faltar a compromissos com receio de ser cobrado por populares e jornalistas de plantão.



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O caso do problema do lixo que a cidade do Recife vivencia desde o início da gestão do atual prefeito é um indício, talvez, dos informantes a enquete apontar com uma frequência grande a falta de gerenciamento da cidade em relação ao lixo urbano como um grande desrespeito ao cidadão recifense. E 23,3% dos entrevistados o associarem diretamente ao que é sujeira para eles.



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Ainda como desrespeito ao cidadão encontra-se relacionado às respostas dos 5% dos entrevistados que ligaram o que é sujo à Falta de Consciência Ecológica. Embora com um discurso mais articulado ligando a questão com o conceito de desenvolvimento sustentável, e com uma crítica ao plano diretor da cidade, as respostas vinculadas a esta categoria apontam como sujeira a poluição dos rios e do ar, ao lixo acumulado nas encostas dos morros ou jogado diretamente nos rios e canais da cidade, a falta de saneamento, a destruição das matas e aos detritos jogados pelas indústrias nas cabeceiras dos rios. As duas categorias, em certa medida, encontram-se relacionadas e se completam. Ambas remetem para a questão do desrespeito ao cidadão, embora a segunda implique uma questão mais ampla ligada à problemática da ecologia e do desenvolvimento sustentável.


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Pode-se juntar a ela, também, a questão trazida pela categoria Fluídos, com 3,3% das respostas. Algumas das respostas que apontam os Fluídos à sujeira, a remetem para a questão da saúde pública. Os gases poluentes, o fedor da cidade, o chorume e os gases produzidos pelo lixo acumulado, a água contaminada causando epidemias, entre outros aspectos, são apontados como males à saúde pública na cidade do Recife e associados à sujeira e à falta de respeito ao cidadão.



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A categoria Fluídos, porém, também está associada a outros tipos de poluição, a principal delas liga sujeira ao sangue menstrual ou ao sangue derramado, outros tipos de respostas indicam Fluídos como sujeira dentro de uma prática comportamental que, se também encontra-se associada à saúde pública, tem aqui mais uma conotação moral, como uma ponte direta ao que muitos chamaram de 'falta de educação familiar'. Entre os Fluídos com conotação mais moral estão o cuspir nas calçadas, o escarrar, o soltar gases intestinais em público, entre outros.



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Esta segunda conotação da categoria Fluídos, no seu sentido moral, está mais associada, deste modo, a outra categoria, a Falta de Higiene apontada por 11,7% dos entrevistados como sujeira. A categoria Falta de Higiene, por sua vez, embora associada a questões morais e disciplinares ligadas a higiene pessoal, está relacionada, especificamente, nos respondentes, à questão da organização privada da vida.



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A vida doméstica é apontada como suja quando associada à falta de limpeza: banheiros, cozinhas, e seus utensílios cuidados displicentemente, pragas domésticas, aspecto pessoal malcuidado, são os elementos mais apontados como falta de higiene ou limpeza e associados com sujeira. O cuspir, o escarrar, os gases intestinais, são associados também à falta de higiene pessoal, e têm uma conotação como sujeira, principalmente, quando em público, ou quando deixados visíveis para o público. Então, nestes casos, são associados à sujeira enquanto expressão comportamental, isto é, de falta de educação doméstica, estando relacionados, assim, à base privada da vida social que se expressa no público como uma ação não educada ou não disciplinada.



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Daí se confrontar também com outra categoria que responde por 11,7% dos entrevistados, que é a categoria que liga a pobreza à sujeira. A categoria Mendicância, Gente Pobre, Gente Suja, como os termos já delimitam por si o conteúdo, associam preconceituosamente a pobreza à sujeira. O ser pobre é associado a um ser sujo, que não tem higiene, que não tem educação, que não ter caráter, que não é digno de confiança, e com alguém que se deve olhar com receio, em seus diversos significados: receio de ser importunado com pedidos de esmolas; de ser roubado; de ser contaminado por doenças, entre vários outros receios.



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Muitos dos entrevistados exemplificam o grande número de mendigos e meninos de rua pela cidade como um caso típico da sujeira com que o cidadão é obrigado a conviver no cotidiano recifense. Ora pelo assédio a que são submetidos, ora pelo aspecto de repugnância que causam ao cidadão comum, ora pelo receio de contaminação, ora, ainda, pelo medo de assalto e outros tipos de violência urbana.



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Os homens pobres, assim, não são vistos como cidadãos, mas como um entulho que incomoda, como uma sujeira a mais na cidade. Daí muitos vincularem os pobres a outra categoria que também responde por 11,7% dos informantes da enquete sobre sujeira, aqui trabalhada, que é a categoria Violência Urbana.



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Recife é considerada como uma das cidades mais violentas do Brasil. O medo da violência é, portanto, visível entre os habitantes da cidade e, talvez, por motivos conjunturais que levaram os respondentes a indicar o problema do lixo como o desrespeito à cidadania mais gritante na cidade, no momento da aplicação dos questionários desta enquete, não tenha sido a principal categoria apontada como sujeira da cidade. Em todo caso, porém, a Violência foi a terceira categoria apontada pelos entrevistados como sujeira, junto com as categorias de Mendicância... e de Falta de Higiene, ambas também com 11,7%.



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Ao se juntar a categoria Violência Urbana com a Categoria Mendicância... as duas indicam que juntas, comportam 23,4% dos entrevistados que responderam a questão. Sob a ótica do imaginário dos respondentes, a pobreza é a principal causa e a causadora da violência da cidade. Uma mulher associando a os meninos de rua e a mendicância à sujeira informa que só sai à "rua porque é o jeito, mas morro de medo de ser assaltada pelas calçadas, pelos arrastões que fecham ruas inteiras quando o sinal (de trânsito) fica vermelho, e de ser agredida (moralmente e sexualmente) por um bandido desses que invadem a cidade". Outra indica a "escória humana se arrastando pelas ruas cheirando cola (de sapateiro), dormindo e fazendo suas necessidades nas calçadas, assediando as pessoas e agredindo principalmente as mulheres, as crianças de família e as pessoas mais velhas... eu mesma já fui roubada mais de uma vez por esses marginais... por mim iriam todos para a cadeia e, lá, deviam ser mortos... prá eles não tem jeito e prá nós é um problema sem fim... vivemos confinados e com medo. A cidade é dessa escória...". Outros indicam as Gangues que controlam as favelas da cidade como mais um problema da Violência Urbana associada à pobreza e a miséria da cidade.



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Uma questão apenas levemente indicada entre os respondentes, com 1,6% das respostas, associa sujeira a Gente Fraca. A categoria Gente Fraca está associada à fraqueza de caráter, a pessoas que se deixam levar facilmente pelo vício. São casos associados, principalmente, ao alcoolismo e ao uso das drogas. No único caso apontado na cidade do Recife, uma mulher fala do "lixo humano que são as pessoas fracas que se deixam levar pelo vício" e que estes "devem ser dignos de pena" e que são as "vítimas preferenciais" das gangues que invadem as favelas e os bairros da periferia da cidade e "controlam o tráfico de entorpecentes", acabando e "desfigurando famílias de bem" quando um dos seus membros é fraco e se deixa levar pelo vício.



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No caso presente, embora veja o vicio como uma fraqueza de caráter e como algo sujo, a entrevistada os vê como vítimas do tráfico. Estes, sim, são vistos como a principal causa da destruição das "famílias de bem" e são eles, em última instância, a sujeira que contamina e destrói os lares que se deixam tocar pelo vício de que são culpados de espalhar.



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Junto com a questão da fraqueza de caráter, ligada ao alcoolismo e ao uso de drogas, encontra-se a categoria Imoralidade, como uma categoria indicada por 6,7% dos entrevistados na enquete sobre o que é sujo na cidade do Recife. A categoria Imoralidade como algo sujo remete diretamente para a pornografia e a permissividade e instabilidade das relações entre as pessoas, que, segundo os informantes que a indicaram, são produtos de uma sociedade sem moral e bons costumes e muito presa a "lei do desejo e as coisas materiais", nas palavras de um respondente.



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A Imoralidade, deste modo, é vista pela maior parte dos entrevistados que a indicaram como sujeira, como problemática do comportamento humano e social contemporâneo, e ligado à dissolução dos costumes e da moral na cidade. Os casamentos se fragmentam com uma facilidade imensa, as mulheres e os homens já não reconhecem mais o seu lugar social, não há mais respeito à castidade, os jovens trocam de parceiros com muita facilidade, a poluição visual a que o sexo é exposto desde as bancas de revistas até a televisão "que invade nossas casas", segundo uma entrevistada, são explicações para a indicação do que acreditam ser Imoral como sujeira.



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Outra categoria presente entre os entrevistados recifenses é a da Falta de Confiança, que responde com 5% do total dos entrevistados. Esta categoria está associada, principalmente, por um lado, a categoria Imoralidade: a questão da traição, do ser corno, do não respeitar os parceiros (homens ou mulheres) dos outros, são indicados como comportamentos atuais e são vistos como sujos através da ótica da dissolução dos costumes e da fragmentação dos laços familiares e da perda de um lugar de reconhecimento dos papéis sexuais entre homens e mulheres no social. Por outro lado, porém, a categoria Falta de Confiança remete para a problemática da lealdade e da fidelidade nos laços sociais entre as pessoas envolvidas. O individualismo crescente na cidade vem quebrando laços de pessoalidade outrora existentes, baseados na reciprocidade e na confiança entre parceiros, isolando cadê vez mais os indivíduos e aumentando a concorrência entre eles.


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A categoria Homossexualidade, com 6,7% dos respondentes na cidade do Recife a enquete sobre 'Sujeira e imaginário urbano no Brasil – 2009' é uma categoria ligada à questão da dissolução dos costumes e a imoralidade nas relações sociais no Brasil e na cidade do recife, em particular. A questão da opção sexual e da sexualidade é vista como sujeira e como um dos males da modernidade, onde a falta de reconhecimento dos papéis atribuídos aos homens e às mulheres cria um fosso moral que deveria ser combatido pelas pessoas honestas.


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A categoria homossexualidade, portanto, indica o comportamento homossexual como sujo e como um dos vetores que levam a dissolução da moral e dos bons costumes. Expressa o preconceito a livre opção sexual e a sexualidade que não é regida pelos códigos da heterossexualidade.


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A última categoria indicada pelos informantes da enquete Sujeira, como já acontecido na cidade de João Pessoa, surpreendeu o pesquisador. Esta última categoria foi indicada por 15% dos entrevistados e têm como sujeira a Falta de Zelo com a Coisa Pública. Esta categoria indica como sujo o comportamento e a ação política nacional e local. Fala da politicagem como um dos males do Brasil contemporâneo e da corrupção, do mau uso dos gastos públicos, da falta de moral dos políticos e gestores brasileiros e da hipocrisia parlamentar e do poder executivo que vêem a política como um argumento para o enriquecimento ilícito e rápido pessoal: "e o povo que se lixe", como informou uma entrevistada que indicou esta categoria como o que considerava sujo no Recife e no Brasil.


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A surpresa do pesquisador é que o mesmo não esperava uma tão maciça correlação da política como sujeira no país. Esta correlação tem a ver, por outro lado, com a desesperança com a política e com as instituições brasileiras e locais. Não é sentida, como na questão da categoria Desrespeito ao Cidadão, quando remetida explicitamente à problemática do lixo pelas ruas da cidade, como algo conjuntural. A categoria Falta de Zelo é sentida como algo estrutural no Brasil como um todo e os políticos e os gestores como preocupados "em encher os bolsos", segundo as palavras de um entrevistado, e "o povo que se exploda" (o exploda tendo o sentido de ser mais explorado, mais humilhado, mais desrespeitado no cotidiano brasileiro e da cidade), como disse outro informante.


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Uma rápida comparação entre a catgegoria Sexo e a categoria O que é Sujo na cidade do Recife
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O Gráfico 2, abaixo, faz uma comparação entre o que os homens e a mulheres da cidade do Recife indicam como sujo ou sujeira. Nesta comunicação apenas haverá uma indicação de como se situam homens e mulheres em relação às categorias apresentadas, sem entrar em nenhuma análise sobre os dados comparados. Estes dados serão posteriormente analisados no relatório final da pesquisa e na série de artigos que deverá aparecer nas revistas acadêmicas a partir de novembro de 2009.

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Como apresentação apenas das diferenças nas respostas dadas pelos homens e mulheres recifenses que responderam a enquete, se lembra ao leitor, aqui, que as mulheres respondem por 43,3% dos respondentes e os homens por 56,7% dos 60 entrevistados.
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As mulheres recifenses apontaram com evidencia maior o que consideravam sujeira junto às categorias de Desrespeito ao Cidadão, com 26, 8% das entrevistadas contra 20% dos homens; a Falta de Consciência Ecológica, com 6,7% das respostas contra 3,3% dos homens; a Falta de Higiene, com 13,3% de indicações contra 10% dos homens; a categoria Gente Fraca, com o total de 3,3% das respostas contra nenhuma resposta masculina; a categoria Imoralidade com 6,7% das respostas contra 3,3% dos homens, a categoria Mendicância, Gente Pobre, Gente Suja com 13,3% de indicações femininas contra 10% dos homens; e, finalmente, a categoria Violência Urbana, também com 13,3% de mulheres contra 10% dos homens.

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No caso dos homens, estes indicaram em maior número as categorias de Falta de Confiança, com 6,7% de indicações contra 3,3% das mulheres; a Homossexualidade com 13,3% de indicações contra nenhuma indicação feminina; e a Falta de Zelo com a coisa Pública: categoria indicada por 20% dos homens entrevistados, contra 10% das mulheres.


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Nota Final
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Tanto quanto já indicado pelos dados apresentados neste Blog em 22 de maio de 2009 na comunicação "O que pensam os moradores da cidade de João Pessoa, Paraíba, sobre o significado de sujeira", os dados para a cidade do Recife mostram a riqueza analítica trazida pela categoria Sujo ou Sujeira para a compreensão da cultura política e comportamental dos habitantes urbanos no Brasil de hoje.



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Nos próximos dias serão apresentados os dados para a cidade de Belém, capital do estado do Pará, e em seguida para as diversas capitais restantes onde foram aplicados os questionários da enquete "Sujeira e imaginário urbano no Brasil – 2009". A última comunicação apresentada fará um balanço comparativo das respostas entre as diversas capitais onde a enquete foi desenvolvida.




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Lembra-se, apenas, que nestas primeiras notícias divulgadas neste Blog sobre a enquete Sujeira... não há intenção de uma análise mais aprofundada, o que será feita posteriormente, como indicado, mas uma indicação do imaginário urbano no Brasil sobre o que é sujo.


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Bibliografia


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KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro Koury. "O que pensam os moradores da cidade de João Pessoa, Paraíba, sobre o significado de sujeira". Blog GP em Antropologia e Sociologia das Emoções, comunicação publicada em 22 de maio de 2009. http://grem-sociologiaantropologia.blogspot.com/2009/05/o-que-pensam-os-moradores-da-cidade-de.html



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KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. De que João Pessoa tem Medo? João Pessoa, Editora Universitária UFPB, 2008.
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KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. Sofrimento Social. João Pessoa, editora Universitária UFPB, 2007.
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KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. O Vínculo Ritual. João Pessoa, Editora Universitária UFPB, 2006.

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KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, (Org.). Medos Corriqueiros e Sociabilidade. João Pessoa, Editora Universitária UFPB, 2005.

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segunda-feira, 25 de maio de 2009

15 anos do GREM - Projeto MEMÓRIA DO GREM

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Dando continuidade as comemorações dos 15 anos do GREM, é publicado neste Blog a Apresentação ao livro de fotografias de Roberto Coura sobre a feira de Campina Grande, Paraíba, publicado em 2007. A referência completa do livro encontra-se no final desta Apresentação.
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A fotografia no cotidiano de relações sociais de um dia de feira

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Mauro Guilherme Pinheiro Koury

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Entre as diversas possibilidades novas trazidas pela fotografia se encontra, sem dúvida, a do encantamento. O cotidiano parece ser repassado à eternidade através de flashes, de recortes através das lentes do fotógrafo, deixando um registro misto. Uma espécie de anotação de algo que aconteceu, como diria Barthes (1980), mas também de um olhar que busca captar o comum, mas que revela flagrantes que o ultrapassam e dão um novo sentido estético, artístico e social ao que não se vê fora das fotografias, porque, talvez, tão presente nas relações apressadas que a cotidianidade permite e expande a quem a freqüenta, encantando com o seu produto final revelado o olhar que observa.
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É nesse campo de possibilidades que o encantamento permite que o conjunto fotográfico sobre a Feira de Campina Grande pelas lentes de Roberto Coura entra em cena. Nele a Feira de Campina Grande é enaltecida e revelada em todo o seu esplendor cotidiano. A feira passa a ser fragmentada pelo olhar de Coura em magníficas representações de tipos humanos que dão colorido ao movimento do lugar: passantes, feirantes, clientes, vendedores, carregadores, barbeiros, prostitutas, pedintes, crianças, homens e mulheres, velhos e moços em atividade, em posição de espera, no posto de observantes em devaneio ao ato da paisagem ou da cena em torno, ou em pose de descanso e de entrega.
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Os olhos de Coura, atento às fisionomias, registra socialidades como máscaras de temporalidades que parecem impregnar os corpos de homens e mulheres com suas figuras, tipos, expressões, rugas, modos, posturas, comportamentos, formas de ação e organização. Faz uma espécie de inventário sobre as possibilidades do humano e das técnicas corporais nele socialmente incrustadas (MAUSS, 1974), com as marcas do tempo e dos hábitos que os caracterizam em um espaço social. Com a docilidade ou com a firmeza do olhar, ou na imponência de presença no mundo do seu lugar de origem, que é o espaço da feira, onde se movimentam e trafegam com naturalidade. Ponto de encontro e desencontro, de venda e compra, de oferenda e recebimento, de oferta e procura, de treinamento e socialidade, a feira é documentada pela sociabilidade que a informa e das formas de reciprocidade produzidas dos e pelos tipos humanos nela presentes.
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O fotógrafo Coura quebra o cotidiano com a sua câmera, invade o mundo do comum onde tudo parece ser visto e naturalizado e tonifica o espaço pela fragmentação do lugar, dando ambivalência ao olhar que posa, propositadamente ou de forma espontânea, e ao olhar que registra e documenta. Um e outro, olhar fotográfico e olhar dos que se deixam fotografar parecem tornar-se ambíguos na fotografia revelada (BURGIN, 1982). O olhar que observa, assim, é remetido ao encantamento que a ambivalência fotográfica permite, não se sabendo qual é real no instantâneo produzido pela interação entre fotógrafo e fotografados, através da máquina de fotografia.
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Ambivalência e ambigüidade reforçadas ainda, é claro, pela autonomia da foto revelada frente aos processos anteriores que possibilitaram o registro e os posteriores que a editaram. Depois de revelada e vinda a público, com sua beleza de fotografia única ou na sua expressão conjunta de ensaio fotográfico também sempre único, - como este magnifico presente ao público sobre a Feira de Campina, - com sua realidade de foto, passa a ser novamente objeto de novas realidades, posta à espera dos olhares públicos ou dos que a observaram, observam e observarão.
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Mais uma vez alterando a representação eternizada no documento fotografia e provocando no observador atento para novas possibilidades imaginárias de real. O que parece objetivar na objetividade da foto um multifacetado campo de possibilidades, de acordo com a experiência de cada um que as vê e de cada reflexão produzida pelos que a discutem.
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Consciente dos diversos jogos possibilitados pela ambivalência e pela ambigüidade do registro fotográfico Coura introduz como um amante, com segurança e sensibilidade, a máquina no cotidiano de relações sociais de um dia de feira. Provoca, seduz, produz, e é provocado, seduzido e produzido pela sua produção, e neste embate amoroso com a câmera individualiza tipos e atitudes, individualiza formas e propostas de organização e uso presentes em um dia de feira autonomizando-os.
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Os tipos e as atitudes, as formas e propostas de organização e uso na cotidianidade da feira também se deixam revelar pela introdução da câmera, produzindo uma mistura de novidade e, ao mesmo tempo, de situação acontecida, porque o documento fotografia não é mais o cotidiano fotografado mas o cotidiano fotografado pelo olhar de Coura fotógrafo, registrando poses e olhares em pose, disposições e usos de espaços e temporalidades, também fora da normalidade cotidiana da ação no comum diário, porque ao posarem ou deixarem ser fotografados os olhares e os objetos dos que são submetidos ao olhar do fotógrafo também deixam a cotidianidade em que parecem estar imersos e passam também a representarem atitudes para a máquina.
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Atitudes, gestos, jogos de corpos, disposições e sentidos quase oferendas à máquina fotográfica, ou totalmente oferecidos aos olhos de Coura, no prazer da entrega amorosa ou sapeca que a troca permite. As adultos e as crianças de Coura são ontológicas desta entrega, tanto quanto a prostituta no ato ilimitado da entrega, no prazer supremo de se mostrar aos olhos da máquina, ou aos olhos com a máquina de Coura, revelando seu corpo nu, seu prazer escancarado na face em expressão absoluta da novidade de ser possuída por uma máquina de eternização da relação estabelecida na entrega a Coura fotógrafo, que é a câmera.
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A fotografia de Coura constrói então uma realidade nova a partir do registro de situações quaisquer escolhidas pela relação entre o olhar do fotógrafo e os elementos registrados, humanos ou não. O real fotográfico parece tornar-se, assim, um real produzido. Um produto de várias interconexões e relações entre o olhar que registra, o olhar que se deixa registrar e o produto do registro que ganha autonomia e se encontra entre alguma coisa próxima entre os dois olhares iniciais (KOURY, 1998).
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Fora, é claro, os demais olhares que submetem este real fotográfico antes de sua realidade de foto revelada. Antes de sua objetificação apresentada ao público, como o olhar da edição das fotos que deixam para trás cenas que não interessam, por problemas técnicos, por repetição, por questões de luminosidade em excesso ou em falta, ou por simples escolha, ou ainda que recortam a cena documentada para dar mais realce ao que se quer mostrar.
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Os tipos humanos na Feira de Campina Grande de Roberto Coura, deste modo, são disponibilizados aos olhares do público para observação em sua inalterabilidade de fotografia e consciente das forças que as reconstroem como fotografias. Como realidades postas ao olhar observador, mas sempre em relação ao espaço e ao tempo que serviram para a sua produção.
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Homens, mulheres, velhos, novos e crianças são flagrados em ação, que os imobilizam em instantâneos na interface da cena em que se situam no momento do flagrante, dispondo aos olhos da máquina, sob o olhar de Coura, os espaços, os tempos e os ritmos da feira, objeto da produção e encantamento fotográfico disposto no ensaio: a diversidade de produtos: verduras, legumes, cereais, carnes, utensílios domésticos, cestarias, cerâmicas, vestuário, flores, alimentação, fumos, serviços, entre tantos mais; a distribuição de barracas, as formas de ocupação e uso de cada uma no jogo entre passantes, vendedores e possíveis compradores; o acompanhar do ritmo e das temporalidades da feira, desde a instalação até o final do dia com flashes memoráveis dos momentos dispostos e dos movimentos ritmados propensos a cada horário e atividade, são apresentados aos olhos que vêem na sua organização tumultuada do agito local. De um lugar de compra e venda e, ao mesmo tempo, de troca de afetos, de conversas, de procuras e de encontros e desencontros.
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O ensaio fotográfico sobre a Feira de Campina Grande de Roberto Coura mais do que um registro documental sobre o processo social de uma feira famosa na região provoca. Estimula o observador a mergulhar com ele no universo multifacetado captado na realidade cotidiana de um centro popular de abastecimento e compras, o decompondo na fragmentação deste universo em flagrantes e instantâneos de uma realidade fotográfica e o recompondo como ensaio de olhar, disponibilizado aos demais olhares públicos na viagem inaugurada e que requer novas transformações, redefinições e montagens pelos olhos que nele e com ele navegarão.
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O mundo de imagens registrado neste livro-ensaio de Coura, assim, é um mundo de sensações de um fotógrafo engajado com a vida, e com a arte. Um aprendizado para os olhos atentos da arte de fotografar de um fotógrafo amante do que faz.
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Referências
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BARTHES, Roland. La Chambre Claire. Paris, Gallimard, 1980
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BURGIN, Victor, Editor. Thinking Photography. London, The Macmillan Press, 1982
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KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro. “Relações Imaginárias: A Fotografia e o Real”. In, L. E. R. Achutti, 0rg. Ensaios sobre o Fotográfico. Porto Alegre, Unidade Editorial, 1998, pp. 72 a 79.
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MAUSS, Marcel. “As Técnicas Corporais”. In, Marcel Mauss, Sociologia e Antropologia, v. II, São Paulo, EPU/EDUSP, 1974, pp. 209 a 234.
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Esta Apresentação se encontra no livro de COURA, Roberto. A Feira de Campina Grande. Campina Grande. Campina Grande, Editora Universitária UFCG, 2007. ISBN 85-89674-05-3.
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domingo, 24 de maio de 2009

Novo livro do Prof. Mauro Koury sobre Sociologia das Emoções

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Encontra-se em fase de lançamento o novo livro do Professor Mauro Guilherme Pinheiro Koury: Emoções, Sociedade e Cultura (Curitiba, Editora CRV, 2009).

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Este livro pode ser adquirido ao preço de R$ 29,90 diretamente no site da Editora CRV no endereço: http://www.editoracrv.com.br/ ou pelo telefone (41) 3039-6418 . Ou, ainda, através das livrarias espalhadas pelo país.

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Sinopse do Livro


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Emoções, Sociedade e Cultura é um livro que intenta discutir a categoria analítica emoções como objeto de investigação na sociologia. Apresenta o conceito de emoções como uma categoria de entendimento capaz de apreender a noção de humano e de sociedade como um todo, e discute as conseqüências metodológicas de uma pesquisa sobre emoções nas inter-relações sempre tensas entre indivíduo social e sociedade.



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A sociologia das emoções constitui uma linha de pesquisa recente, calcada na tradição científica da disciplina mais ampla que a contém, e vem atraindo interesse crescente de especialistas, pesquisadores, estudiosos e leitores. É um campo de reflexão que busca revigorar a análise sociológica, introduzindo perspectivas novas para a grande questão interna da sociologia em geral, como disciplina, que é a problemática da intersubjetividade.



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O livro Emoções, Sociedade e Cultura busca fazer uma avaliação do estado da arte e uma iniciação à disciplina sociologia das emoções. Nele, o leitor encontra um balanço dos autores clássicos da sociologia, onde se procura compreender como eles sentiram e trabalharam a questão das emoções em suas análises. A seguir, apresenta o campo disciplinar da sociologia das emoções na Europa e nos Estados Unidos, desde os anos setenta do século passado, apresentando os seus principais autores e temáticas trabalhadas. Analisa, por fim, a sociologia das emoções no Brasil, que começa a se expandir no país no final da década de 1990.



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Este livro é um instrumento no processo de expansão e de consolidação da sociologia das emoções como campo disciplinar próprio, no interior da sociologia geral e das ciências sociais. Procura levar o leitor para os debates formadores e que impulsionam a sociologia das emoções no mundo Ocidental e, de modo específico, no Brasil, o colocando a par deste debate e o convocando a desvendar e a participar como estudioso e como pesquisador nesta área que ganha cada vez mais adeptos e atenção no país e no mundo.



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Este livro, para finalizar, é uma introdução ao modo de pensar e fazer sociológico e aos processos de construções novas realizadas sempre como produtos de releituras dos que fizeram a sociologia deste o seu surgimento e os debates no interior da tradição. Releituras que ajudam a refinar os instrumentos de análise e abre novas perspectivas de pesquisa e de reflexão mais atinados com os avanços, práticas e formas processuais do cotidiano.



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sexta-feira, 22 de maio de 2009

1a Comunicação da enquete "Sujeira e Imaginário no Brasil - 2009" - Cidade de João Pessoa (PB)

O que pensam os moradores da cidade de João Pessoa, Paraíba, sobre o significado de sujeira
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Mauro Guilherme Pinheiro Koury
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Tem início, hoje, o primeiro informe sobre o que o brasileiro considera sujo ou sujeira. Esta primeira notícia mostra a tabulação para a cidade de João Pessoa, capital do estado da Paraíba, onde foram aplicados 60 questionários para a enquete sobre Sujeira e Imaginário Urbano no Brasil.
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Esta enquete foi realizada, neste ano de 2009, durante os meses de março a abril, em seis capitais de estados do país: João Pessoa (PB), Recife (PE), Brasília (DF), Belém (PA), São Paulo (SP) e Curitiba (PR), sendo aplicado um total de 390 questionários.
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A sua realização se deu durante o trabalho de campo para a coleta de dados para uma pesquisa maior, em desenvolvimento no GREM, sob a coordenação do autor, intitulada “Medos Corriqueiros e Sociabilidade Urbana no Brasil”. A questão do que é sujo relacionado à do que é medo apareceram várias vezes em entrevistas realizadas na primeira e na segunda fase da pesquisa ‘Medos Corriqueiros’ chamando sua atenção. Daí ter aproveitado um momento de treinamento e aproximação com os locais onde a nova fase da pesquisa sobre medos corriqueiros se daria, neste ano de 2009, para trabalhar a questão do que é sujo ou sujeira para os habitantes das capitais dos estados brasileiros.
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Os resultados desta inquietação traduzida em uma enquete simples aplicada a seis capitais de estados do país estão sendo trabalhados em forma de artigos que deverão ser publicados, em breve, na RBSE – Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, do GREM, e em outras revistas científicas ligadas às áreas de Sociologia e de Antropologia nacionais ou internacionais. Este Blog divulgará, em primeira mão, os gráficos iniciais da tabulação desta enquete, sem ainda uma análise aprofundada sobre o assunto; o que deverá ocorrer em breve com o amadurecimento e publicação dos artigos em andamento.
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A decisão de divulgar os primeiros dados tabulados neste Blog, em uma série de notícias e pequenos comentários, foi o de chamar atenção ao leitor para a importância da categoria Sujo ou Sujeira no Brasil urbano. Como se pode notar na tabela abaixo, através da idéia do que é sujo para o entrevistado, se passa em revista a questão nacional. Na categoria Sujo ou Sujeira encontra-se relacionados desde a questão da falta de ética na política e no trato da coisa pública, até o uso tradicional de falta de higiene.
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Uma análise do país em termos de cultura política, de medos e receios, e de costumes, através da idéia dos informantes sobre o que é Sujo, se torna possível e leva o leitor a um passeio no imaginário urbano nacional e nas vivências, reflexões e comparações emitidas pelos informantes que se dispuseram a responder a enquete.

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João Pessoa, Paraíba

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Como já foi informado acima, foram aplicados 60 questionários na cidade de João Pessoa, com a questão O que é Sujo ou Sujeira para Você? Os questionários foram aplicados nos Shoppings locais, nos centros de compras populares, no Parque Solon de Lucena, nas praias, todos locais de passagem ou aglomeração da população local em seu todo.
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Dos 60 questionários aplicados, 34 foram com mulheres (56,7%) e 26 com homens (43,3%), em idades que variaram de maiores de 15 anos a mais de 65 anos. E com renda familiar que também variava de menos de um salário mínimo até mais de quarenta salários mínimos. Os entrevistados também variavam em nível de instrução, indo do analfabeto até os pós-graduados (especialização, mestrado e doutorado), trabalhando nos mais diversos tipos de ocupação, de desempregados e donas de casas, de ambulantes a empresários, de comerciários a profissionais liberais, entre outros.
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O primeiro gráfico (Gráfico 1) inserido nesta comunicação se refere, apenas, às categorias presentes sobre o que é Sujo ou Sujeira para a totalidade das respostas, independentes de quaisquer das variáveis acima. No segundo gráfico (Gráfico 2) são mostradas as categorias do Sujo ou Sujeira cruzadas com o Sexo do entrevistado. As demais variáveis não são expostas neste informe sobre o que é sujo para os habitantes da cidade de João Pessoa.



Uma Leitura Rápida dos Gráficos

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O Gráfico 1 demonstra as principais categorias de respostas dos entrevistados para a pergunta 'O que é sujo ou sujeira para você?' Como se pode notar em uma primeira leitura do Gráfico 1, as categorias nele presentes podem ser resumidas em outras tantas categorias maiores. Assim, é possível juntar em uma mesma categoria analítica as categorias que expressam noções de sujo ligadas à violência urbana (5% das respostas), ao desrespeito ao cidadão (6,7%) e a saúde pública, através dos Fluídos (13,3%). Esta categoria maior poderia ser chamada de Males do Urbano e responderia por 25% das respostas dos entrevistados. Através dela os entrevistados responderiam pelo elevado índice de perigo do viver na cidade de João Pessoa, seja pelo aumento da criminalidade (assaltos, estupros, e outras formas violentas), seja pelos problemas ligados a falta de saneamento da cidade (problemas de esgotamento sanitário, lixo urbano, mau trato das vias públicas, problemas de iluminação entre outras questões), seja, ainda, pela questão dos fluídos (odores ligados a poluição e outros).
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Uma segunda grande categoria poderia ser pensada através da denominação de Preconceitos. Esta grande categoria Preconceitos englobaria as ligadas a Homossexualidade (com 6,7% das respostas) e a da pobreza como algo obsceno, presente na categoria de Mendigos, Gente Pobre e Gente Suja (10%). Pobreza e opções sexuais não heterossexuais sendo consideradas como uma coisa suja, ou como portadoras de sujeira em si, pelos entrevistados de João Pessoa. A categoria maior Preconceitos, deste modo, responde por 16,7% das respostas sobre o que é sujo para os habitantes da capital paraibana.
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A categoria Imoralidade (11,6% das respostas), por sua vez, fala da pornografia, dos relacionamentos amorosos e sexuais contemporâneos, vistos como safadeza pelos entrevistados, diz ainda da prostituição e da falta de valores morais entre os jovens de hoje. A esta categoria poderia juntar-se, também, a de Gente Fraca (5%), que considera como sujo as pessoas consideradas pelos informantes como sem perspectiva, e que se lançam no vício, seja através da bebida, seja através da droga e outros, como uma forma de saída pessoal. A estas duas será agregada a de Falta de Confiança (8,3%), que informa como sujo ou sujeira a traição, o ser corno, a deslealdade e a mentira, presentes na sociabilidade contemporânea com a individualização e o individualismo crescentes nas formas de sociabilidade advindas com o crescimento e complexificação da cidade, e com a perda de laços mais pessoalizados.
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No caso da cidade de João Pessoa, esse aspecto é sentido, principalmente, desde o final dos anos setenta e, sobretudo, dos anos oitenta do século passado, como o crescimento acelerado da cidade, causando temores e receios nos habitantes mais antigos da cidade que não mais reconheciam a própria cidade, agora dominada por pessoas de diversas origens, sociais e econômicas e espaciais (de outras localidades do estado, do país e do exterior), e não reconheciam mais a si próprios: se colocando como prisioneiros de sua própria casa, com medo de andar pela cidade, de ter a casa invadida, do esfacelamento dos laços de sociabilidade e pessoalidade que os uniam até a pouco tempo, e da perda de confiança em si e nos outros. A esse respeito ver a análise do autor no livro De que João Pessoa tem Medo? (João Pessoa, Editora Universitária, 2008).
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A grande categoria que engloba as de Imoralidade, Gente Fraca e Falta de Confiança, poderia ser aqui chamada de Males da Modernidade, e responde por 24,9% dos entrevistados da cidade de João Pessoa.
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As duas categorias restantes, a da Falta de Higiene e a da Falta de Zelo com a Coisa Pública, ambas com 16,7% das respostas dos entrevistados, são consideradas aqui como categorias abrangentes por si próprias. A primeira lida com a questão da higiene doméstica: a falta de limpeza, as panelas sujas, bichos peçonhentos e todos os tipos de insetos, entre outros. A visão de sujeira, nesta categoria, está diretamente relacionada aos maus cuidados com a limpeza doméstica, no sentido restrito ao interior da casa, bem como as pragas urbanas que, às vezes infestam a residência, também consideradas como falta de limpeza ou cuidados domésticos.
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A segunda categoria restante é a que mais surpreende nesta enquete. A categoria Falta de Zelo com a Coisa Pública fala diretamente contra a falta de ética existente na política e na administração pública brasileiras: elementos como a corrupção, como o desvio de verbas, a má aplicação dos recursos públicos, a utilização dos recursos públicos para fins pessoais dos gestores ou políticos, a má aplicação e o descaso com as políticas públicas no país, principalmente as ligadas à educação e à saúde, a questão da fome associada ao desvio de verba e a falta de interesse político dos gestores públicos e políticos no país, são algumas das informações que associam a política no país como politicagem e sujeira, pelos habitantes de João Pessoa que responderam a enquete.
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Comparação entre as respostas de homens e mulheres
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O Gráfico 2 abaixo, por sua vez, faz uma rápida comparação das respostas obtidas durante a aplicação da enquete entre os homens e as mulheres que foram abordados e se dignaram a responder o questionário.

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Nesta rápida comparação entre as respostas de homens e mulheres a questão sobre O que é sujo ou sujeira para você, feita aos habitantes da cidade de João Pessoa na enquete sobre sujeira para a pesquisa ‘Medos Corriqueiros’ do GREM, sobressai que a questão da falta de higiene doméstica é associada mais a sujeira pelas mulheres, com 20,6% das respostas, do que pelos homens, com 11,5% das réplicas. A questão da falta de moral e a imoralidade como um dos males da modernidade também é uma categoria apontada em maior número pelas mulheres (14,7%) do que pelos homens (7,7%).


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O mesmo acontecendo com a categoria da violência urbana, com 5,9% de respostas das mulheres, e 3,9% das dos homens. E em relação à questão dos vícios (drogados, bêbados e outros) englobados na categoria de Gente Fraca: com 8,8% de respostas femininas, contra nenhuma resposta masculina.


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Na questão dos preconceitos associando pobreza e homossexualidade à sujeira, por outro lado, os homens se revelaram mais preconceituosos do que as mulheres: 11,5% dos homens ligam a homossexualidade à sujeira, contra 2,9% das mulheres; e, 11,5% dos homens associam pobreza (mendicância, gente pobre, gente suja) a sujeira, versus 8,8% das mulheres entrevistadas.
Os homens comparam a falta de confiança (traição, deslealdade, mentira) à sujeira em maior número (11,5%) do que as mulheres (5,9%). Os fluídos (gases, sangue, sangue menstrual, esperma, mau cheiro, odores da morte), por sua vez, encontram- se mais associados à sujeira nas respostas dos homens (15,5%) do que nas réplicas femininas (11,8%).


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Comparando, por fim, as respostas entre homens e mulheres em relação à categoria do Desrespeito ao Cidadão, se vê que as respostas masculinas (7,9%) e femininas (5,9%) quase se equivalem em relação à falta de respeito aos direitos e ao bem estar do cidadão na cidade de João Pessoa como algo sujo, como sujeira.


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Finalmente, a última categoria, a da Falta de Zelo com a Coisa Pública como algo sujo, como uma referência crítica ao mau uso da política e da gestão pública no país, teve uma grande incidência de respostas tanto dos homens (19, 2% das respostas), quanto das mulheres, com 14,7% das indicações.
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Notas Finais
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A categoria sujeira, como visto, é uma categoria importante para refletir e compreender o comportamento e o pensamento social do brasileiro urbano sobre o Brasil e sobre o imaginário do que é considerado sujo na vivência cotidiana dos habitantes das capitais de estados pesquisados.
Este informe sobre a enquete sobre Sujeira e Imaginário Urbano no Brasil na cidade de João Pessoa, abre uma série de comunicações sobre as primeiras tabulações das respostas auferidas a ela, abordando o pensamento sobre o que é sujo ou sujeira nas cidades de Recife, Belém, Brasília, São Paulo e Curitiba.


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A última comunicação abordará o conjunto das cidades, traçando um perfil do que é considerado sujeira entre os brasileiros residentes nas cidades pesquisadas e estabelecendo uma comparação entre elas.

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Recife/São Paulo, maio de 2009
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terça-feira, 19 de maio de 2009

Revista destinada ao público do segundo grau dá destaque ao GREM

A Revista Sociologia Ciência & Vida da destaque à Sociologia das Emoções e ao trabalho do GREM

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A revista Sociologia Ciência & Vida, ISSN 1980-8747, publicada pela editora Escala, São Paulo, é uma revista destinada a divulgação da disciplina Sociologia para o público composto, principalmente, de professores e alunos do segundo grau. Em seu último número, já nas bancas de todo o país (ano III, n. 23, maio de 2009), traz como matéria de capa a Sociologia das Emoções.

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Esta matéria, com grande inspiração no livro de Koury, Mauro Guilherme Pinheiro (2004) Introdução à Sociologia da Emoção, (João Pessoa, Editora Manufatura / GREM), faz uma boa apresentação da Sociologia das Emoções como linha de pesquisa recente e inovadora da Sociologia, emergida no final da década de setenta do século vinte nos Estados Unidos e Europa e a partir dos anos noventa no Brasil. Hoje, com grande expansão no mundo acadêmico e tida como uma área de pesquisa consolidada e respeitada por profissionais da Sociologia mundial.

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A matéria, assinada pelo Prof. Dr Emerson Sena de Oliveira dá, ainda, destaque ao GREM, como um dos grupos atuantes no Brasil na área de Antropologia e Sociologia das Emoções, deste 1994, chamando atenção, também, para este Blog e para a RBSE - Revista Brasileira de Sociologia da Emoção, editados por este Grupo de Pesquisa.

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Este número da revista Sociologia traz, ainda, uma entrevista com o sociólogo francês David Le Breton e uma matéria sobre o vício, entendido como um mal-estar contemporâneo. Destaque, ainda, para um pequeno resumo de algumas teses e dissertações defendidas em 2007 e 2006 no Brasil, que trazem as emoções como categoria principal da análise.

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Parabéns para os editores da Revista Sociologia Ciência & Vida!

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segunda-feira, 18 de maio de 2009

15 anos do GREM - Projeto MEMÓRIA DO GREM

Ainda no interior do Projeto MEMÓRIA DO GREM, nas comemorações dos 15 anos deste Grupo de Pesquisa, se publica neste Blog uma resenha feita pelo Professor Mauro Koury sobre o livro de Luis Eduardo Robinson Achutti: Fotografia. Esta resenha foi publicada originalmente na revista Política & Trabalho n. 15, pp. 235 a 238, 1999, e em uma segunda versão na revista Cadernos de Antropologia e Imagem, v. 9, n. 2, p. 125-128, 1999.
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ACHUTTI, Luís Eduardo Robinson (1997). Fotografia. Porto Alegre: Tomo Editorial.

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A dedicatória de um pai fotógrafo ao nascimento de sua filha Julia, logo de início, me comove. De nascimento todo registrado, posa em foto única de recém entrada no mundo. O mundo da fotografia do pai Achutti é introduzido ao pequeno ser que espera o mundo no momento de sua chegada; ou o mundo da Julia invade o mundo da fotografia do pai Achutti, que um dia teve um avô, também fotógrafo, de nome Bartolo Achutti, que seduziu o neto para o mundo da imagem. Não através de suas fotografias mas, como revela o encantado neto seduzido, no texto introdutório ao Fotografia, "por uma imagem que tinha emoldurada pela janela do seu sotão oferecida a toda humanidade: a imagem da lua" .
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O Fotografia de Achutti, assim, coloca o olhar do observador numa ambigüidade que revela e enovela o fato fotográfico com o ato fotográfico. O fato e o ato se fundem e se transmudam ao mesmo tempo como mundos que se complementam. Processos que operam desde a apresentação do olhar, à escolha sobre os recortes escolhidos no real, à seleção do fotógrafo, - que apesar de achar que toda fotografia deve ser mostrada, "que uma fotografia guardada não é nada", cria uma instância entre as que irão ser vistas e as que nunca sairão do arquivo de fotografias mortas, - até se configurarem nas leituras dos olhares que contemplam a arte final apresentada.
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Ato e fato fotográfico revelando a ação do fotógrafo, sua sensibilidade, seu mundo possível elaborado num álbum como uma mostra do constructo apresentado como produção. Produção como fato sobre olhares observadores que se informarão não só de mensagens contidas nas angulações e representações de cada foto, mas como apresentação ao universo particular do fotógrafo. Posto ao exercício público do olhar o ato fotográfico é remetido como fato a novas interpretações. Como um diálogo travado em dois momentos entre diversos mundos possíveis. Onde o mundo possível apresentado como produção, como atos produzidos se enovelam com os mundos possíveis das construções dos olhares observadores que vêem o resultado como fato. Passíveis de sedução, possíveis de apresentação e até de devaneios onde as fotos como fato apresentadas são a ponte para àquela "janela do sotão", que ilumina as combinações do enovelamento e revelação evocadas no livro Fotografia.
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Autor e leitores dialogam em entendimentos variados da narrativa proposta. Isso depois, como ensina Umberto Eco, no seu belo Lector in Fabula, do olhar atento que lê as fotos em sua individualidade e em seu conjunto, invadir o mundo possível do autor para compreensão da narrativa proposta. Para só após sonhar, no estranho e necessário diálogo entre a proposta enredada e os diversos enredos possíveis de serem propostos no constructo simultâneo de vários fatos sobre os mesmos atos que se não são seus, observadores, mas a eles foram oferecidos como produção. Em atos que gerou o fato enredado enquanto mostra fotográfica de autor.
Essa conjugação do ato fato, na construção do autor e nas leituras dos olhares que observam , navegam por um plano comum proposto à organização do livro: um apanhado estético de vinte e dois anos de fotografia. Materialização de um sonho do autor.
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Essa informação leva os olhares a um mergulho estético e histórico sobre a construção e disposição das fotografias no álbum. Olhares podem querer navegar sobre o burilamento estético do autor através do acompanhamento do apanhado fotográfico nesses vinte e dois anos de uso do instrumento. Outros olhares podem querer discorrer sobre o acompanhamento histórico fatual e cronológico do material escolhido para compor o livro. Ambos se perdendo na primeira impressão da observação disciplinada.
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O Fotografia explode o disciplinamento proposto como rota de navegação e aparece como um roteiro sentimental de viagens do autor que as situa para que também possam evocar bons pensamentos nas viagens dos olhares. O autor propõe tocar evocativamente os leitores através das sensações suas sentidas em cada momento de sua navegação fotográfica. É aí que a Julinha entra de novo. Ela não só entra como forma de sedução do pai ao registrar as cenas do seu nascimento, nem só como para influenciar com o seu mundo o mundo fotográfico do pai. Ela entra como sentimento. Como mais uma emoção de um fotógrafo em vida de fotografia, sentimentalmente registrada.
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O Fotografia assim é um passeio no cotidiano emocional e sentimental do Achutti. Revela cada momento de expressão intensa de ternura, de compromisso, de ideologia, de beleza, de arte, de solidão, de esvaziamento, de preenchimento que atravessaram o autor nos diversos instantâneos sentimentalmente escolhidos, e esteticamente realçados por sua câmara, e depois por sua escolha na revelação e na seleção para a mostra.
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O olhar do leitor passa assim a debruçar-se no devaneio do autor, para só então entender e sonhar também com os pensamentos expressos no sonho de Achutti do Fotografia. A cronologia, os recortes temáticos possíveis, a estética em refinamento, são assim secundarizados pelo olhar que vê mais uma vez, e são retomados através das evocações sentimentais provocadas no autor e na viagem junto do autor que o leitor se submete com prazer, também evocando para si os mundos por ele mostrados. Não mais para contraporem-se aos seus também mundos internos, mas para deliciarem-se no elogio à emoção que abunda no Fotografia.
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De Porto Alegre para o mundo, sem esquecer Macapá, no seu retorno a Porto Alegre, seu pequeno Brasil. O Parque Farroupilha, com seus brinquedos esquecidos na areia pela criança que por ali passou, talvez fascinada pela roda gigante que também fascina como fotografia esse que aqui escreve. O Gasômetro, o Guaíba, o por do sol como nenhum outro, a lua com sol, e chega-se a Havana. Rápido. Para cair de novo em Porto Alegre, com uma belíssima imagem de menina monumento, pobre e bela, como pobres e não tão belos os infelizes urbanos retratados nas ruas de Porto Alegre. Então, como em um passe de mágica, se chega a Berlim. Em um auto-retrato retratado de uma pintora, de nome Dina, na Alemanha ainda Oriental, para correr de volta aos braços de Porto Alegre com a imagem e os pincéis de Iberê Camargo.
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Daí se invade Montevidéu, com suas pandorgas, e volta a Porto Alegre. Desta vez sem deixar de visitar Ouro Preto, em duas ontológicas fotos de um músico em descanso e de uma pequena bailarina que espera o baile na rua recomeçar. O retorno a Porto Alegre é político: papéis esvoaçantes soltos ao vento pelas mulheres que ocuparam a casa de estudantes da universidade federal. Mas não resiste, talvez com as lembranças ainda quentes do descanso da música e da dança de Ouro Preto, e mostra uma belíssima imagem de uma lona cujo sol ilumina em todos os seus remendos uma arquibancada de um circo de periferia.
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Mais uma vez no mundo de fora visita o ford apodrecido na garagem de uma casa ou de uma oficina qualquer de Montevidéu, e corre para Porto Alegre, na Rede Ferroviária, com suas máquinas paradas. Madeiras e latarias apodrecendo, formando texturas de uma beleza rara nas lentes do autor. Câmara militante no registro das cenas finais da ferrovia no Brasil, via Porto Alegre, numa série de rostos profissionais de mecânicos até uma última fotografia, que evoca um movimento de greve, que evoca o fim da linha, que evoca homens em ação.
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Mais uma vez Havana, com os seus coloridos, e com o jeito irônico de viver cubano. Das fotos dos carros decadentes, do velho em Trinidad com o seu charuto e sua cesta de vime, passando pelo El Malecon, com suas garotas e garotos que olham fascinados para a câmara do Achutti, talvez a preço de banana. E a presença de la revolución, com a foto de um Camilo Cienfuegos que emoldura uma sala de recepção burocrática decadente, mas de cores fascinantes, nas suas paredes de azul e verde descascados e uma mesa onde se lê Información, junto a um vaso de flores de papel e uma bolsa de fazer tricô.
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Militante desce para a então recente revolução sandinista. Achutti e o olhar do leitor invadem a Nicarágua. O soldado com seu fuzil e seu papagaio, um lambe-lambe, crianças em exercício militar pela paz, e um belíssimo cartaz onde o povo parece caminhar com a cruz, com a viola, com o instrumento de trabalho, pela reconstrução do país, e um menino militar que posa em frente a ele, parecendo dele sair em vida. E la Nicarágua vá: a procissão, meninas que olham algo em cima dos pilares da Catedral de Manágua, a Central de Ação Sindical, com as fotos de Marx, Engels e Lenin.
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Para com um salto revelar a arte na Nicarágua, com suas pintoras primitivas... A volta ao sul do Brasil é inevitável, e se faz em uma bela foto, quase aquarela de um mar sem cor, e do silêncio evocado pelos barcos na areia, ou prisioneiros da vegetação, ou emoldurando o vermelho do entardecer na Lagoa Mangueira.
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Do Rio Grande do Sul pula-se para o Oiapoque, o extremo norte do Brasil, tendo em mente o extremo sul. A lembrança faz o autor, e os leitores que o acompanham, voltarem correndo para lá, com a apresentação de uma paisagem belíssima , quando a câmara capta um solitário e majestoso gavião ao entardecer em um poste de madeira que transporta fios de alta tensão.
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O salto seguinte é para Londres. Visita Paris, e retorna à Alemanha Oriental, ao estúdio da pintora Dina, até chegar a Berlim no dia da reunificação alemã. O povo na praça, o muro destruído, Marx relembrando o tempo de vivo tomando cerveja dada por um jovem na sua rebeldia jovem que, talvez, não pensasse que aquele ser estátua também era um cervejeiro em vida .
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De novo no norte do país, Macapá, numa foto de uma casa com apenas uma frente, sua cerca em torno e um verde estranho de mato que invade, em um céu nublado e abafado, toda a foto. O que parece dar à paisagem um ar de não sei o que, de peça montada, talvez. Mas que incomoda. Com certeza.
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A viagem de Achutti finda em Porto Alegre, como não poderia deixar de ser. Um Achutti acadêmico, diferente, que busca um caminho na antropologia visual onde a fotografia seja a cena mestra. Sem, porém, deixar de comover em suas fotos. O Fotografia termina com a proposta de uma fotoetnografia, no universo pesquisado para uma dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal, do lixão da Vila Dique de Porto Alegre, recém destruído em um incêndio criminoso. Belas imagens reveladas, as últimas, talvez, da seleção de papéis para à venda, ao cotidiano sobreviver de excluídos, na figura de um barbeiro que vivia de fazer a barba de coletores de lixo, no próprio lixão.
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O mundo de imagens registrado no Fotografia é um mundo de sensações de um fotografo engajado com a vida, e com a arte. Uma delícia de devaneio aos olhos interessados no sonho revelado nas fotos de Achutti. Um aprendizado, enfim, para os olhos atentos à arte de fotografar de um fotografo mais do que profissional, amante.
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Mauro Guilherme Pinheiro Koury
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domingo, 17 de maio de 2009

15 anos do GREM - Projeto MEMÓRIA DO GREM

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Em continuidade ao Projeto MEMÓRIA DO GREM, nas comemorações dos seus 15 anos de atividade, se publica mais uma Apresentação na série de apresentações à exposições fotográficas. Desta feita é publicada a Apresentação Mostra Ensaio para a revista Caros Amigos, em 1998.
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MOSTRA ENSAIO
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Mauro Guilherme Pinheiro Koury
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A fotografia revela e esconde simultaneamente, em um misto de arte e realidade onde o olhar reflexivo é capturado primeiramente como estética absolutamente sentimental sobre o processo de visão de uma realidade - fotográfica, - na qual se debruça. O real da foto é singularmente a realidade que a foto apresenta, que se mistura ao olhar que vê e a realidade imaginária das relações que fundam esse olhar, como uma curva de vida particular. A realidade fotográfica é, assim, sempre uma construção estética amparada nas configurações do real de vários olhares que fundam a constituição final do produto fotografia no público. Sempre uma construção social, por embaralhar nos diversos olhares que a compuseram, singularidades imaginárias da constituição de um povo, que apresenta os elementos necessários à compreensão comum de olhares singulares sobre o mesmo conjunto e, ao mesmo tempo, instituição da diferença pela especificidade que cada olhar possui, pelas experiências diversas que o alinham a um núcleo comum mas o faz também único - indivíduo singular, sujeito de suas experiências, criador.
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Essencialmente simbólico o jogo, no qual o fotográfico se apresenta enquanto construção social, revela a polifonia de possibilidades na constituição de um mundo comum. Revela a multiplicidade de cumplicidades que faz o olhar único ser compartilhado como olhares simultâneos e comuns necessários à prática de uma sociabilidade. Revela, enfim, a sensibilidade do olhar que captura recortes e ângulos da multifacetada face do cotidiano fazer dos homens, onde se debruçam outras sensibilidades em olhares que observam o produto capturado e o remete a novas singularidades expressivas da reflexão onde se estabelecem as bases da compreensão e do pensamento.
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O perigo do jogo desses diversos olhares é quando o objeto ganha autonomia, submetendo os olhares ao próprio objeto. O configurando, não como construção sempre em modificações, sempre em processo, como o real efetivo. Como a verdade sob a qual o olhar se subsume e se faz visão. Quando esconde o jogo de criação simbólica dos homens enquanto criadores e os fazem produtos da técnica. É o outro lado da potencialidade da fotografia, enquanto instrumento simbólico manipulável na conformação hegemônica de uma dominação social.
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As duas facetas da fotografia, enquanto criação e enquanto subsunção do olhar, demonstram o fascínio que exerce o ato fotográfico para o social e para o pensar as estruturas elementares da constituição desse social. Em um e no outro a polifonia de recortes, de símbolos, de valores, dos significados intrínsecos atribuídos ao não percebido por ser banal ou por não estar ao alcance, a universalidade e a globalidade do particular distante como singular local, complexificam o olhar que captura e o olhar que vê o objeto presente em uma realidade fotográfica.
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Cientes da ambigüidade que provoca no olhar e no próprio ato fotográfico a fotografia, a Agência Ensaio na cidade de João Pessoa - Paraíba, se debruça em um projeto ambicioso e importantíssimo de documentação fotográfica da região do Nordeste do Brasil. Há cinco anos desenvolve um projeto documental da vida ordinária dos homens e mulheres comuns das pequenas comunidades nordestinas ou perdidas no emaranhado dos centros urbanos mais importantes.
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Mulheres anciãs com rostos marcados pela difícil arte de sobreviver na região, mas com olhares determinados apesar do cansaço; a estrutura familiar de uma sala de visita do interior, com sua multifacetada estruturas de símbolos que marcam a tradição familiar do passado através dos retratos dos filhos e de si próprios na juventude, além de mostrarem a inclusão na modernidade capitalista, de um tempo imposto ao tempo circular, pela folhinha-calendário e as incursões religiosas nos santos afixados de devoção. Ou no velho sanfoneiro transvestido em seu uniforme de artista e seu instrumento de trabalho. Ou ainda o lazer nos intervalos da labuta e o comportamento infantil, no mergulho ousado nas águas do rio ou nas brincadeiras na praça: do menino e sua sombra. Ou, enfim, na brincadeira de branco e preto para o olhar, que se surpreende até compreender freiras com seus hábitos reunidas a orar.
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Fotos de Ricardo Peixoto, Mano de Carvalho e Marcos Veloso, fotógrafos paraibanos que fazem a Agencia Ensaio, nesta Mostra Ensaio, em que apresentam com sensibilidade e apuro técnico, a arte de captação multifacetada das manifestações de singularidades de um povo e de suas experiências individuais de criação e vida. Que trabalham a fotografia como arte documental, cientes que são das construções imagéticas do registros e de sua realidade como real fotográfico.
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sábado, 16 de maio de 2009

15 anos do GREM - Projeto MEMÓRIA DO GREM

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Dando continuidade ao Projeto Memória do GREM: Série de Apresentações de Exposições fotográficas, se publica agora a Apresentação feita pelo Professor Mauro Guilherme Pinheiro Koury, a pedido da Agência Ensaio, da cidade de João Pessoa, Paraíba, para a Exposição Fotográfica: Expedição Fotográfica/Roma. Esta exposição resultou de uma expedição de fotógrafos profissionais e amadores ao destrito de Roma, no município de Bananeiras, Paraíba, comandada pela Agência Ensaio, no ano de 1996.
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Exposição Expedição Fotográfica/Roma

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Mauro Guilherme Pinheiro Koury

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Roma. Expedição fotográfica a Roma. João Pessoa ruma à Roma, descobrindo a Paraíba e o Brasil. Olhares fotográficos viajantes e livres que vão compondo e decompondo com seus clicares a comunidade de Roma, distrito e fazenda pertencentes ao município de Bananeiras (Pb).
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A casa grande, a casa de farinha, a destilaria de aguardente, a festa nas ruas de Roma, o casario de Roma, a paisagem de Roma, os tipos humanos pegos displicentemente ou em poses para as câmaras, o cabaré, as palmeiras, os capins e o céu nublado que escondem descobrindo o cruzeiro e a torre da igrejinha colonial, o túnel, pequenos alpendres, recortes de flores e folhas que vicejam a paisagem de Roma, os animais e os fardos humanos dos animais agora instrumentos, alongamento da força e da capacidade dos homens que os utilizam. Os interiores, os detalhes de corpos e de intimidades domésticas (ou nem tanto), a luz que vaza a escuridão por gradís, frestas e janelas permitindo ver detalhes de alambiques, das moendas, dos utensílios domésticos nos interiores, e deixando flagrar indiscreta pedaços de paisagens e passantes, ou daqueles que se permitem o olhar sorrateiro e a inesperada e ao mesmo tempo esperada presença corpórea, de pessoas meio posando meio que se inserindo no recorte que as fotos permitem desenhar.
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Como em Roma de Fellini, descobrindo a cidade e encontrando o país e a nação italiana através da liberdade de olhares aparentemente fragmentados do cotidiano e dos espaços exclusivos e de exclusão, a Expedição a Roma de Bananeiras (Pb) realizada pela Agência Ensaio, proporciona a descoberta de um país, de uma nação e de um estado, através da abertura dos diafragmas à liberdade dos olhares de um grupo diverso de fotógrafos amadores e profissionais que recortaram a comunidade de Roma em busca de aperfeiçoar sua técnica e conhecimento no ensaio fotográfico. O resultado é um surpreendente encontro com um Brasil multifacetado e ao mesmo tempo despudoradamente território de identidades, de tradições reconhecíveis através da sensualidade, do lúdico e da tristeza alegre que do coletivo das fotos emanam, e pela luminosidade intensa de suas paisagens, e pelo homem redimensionado, criando imagens que encantam e ampliam e instigam o olhar que vê.
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A Expedição a Roma é uma viagem ao coração do Brasil através de olhares que buscam também o encontro consigo, como nas brincadeiras e farras do registro do grupo pelo grupo mesmo em atuação. Fotógrafos e paisagens formam, enfim, uma espécie de caledoscópio onde a cada giro funda as bases do nascimento e formação do humano e da sociedade no Brasil, refletindo criticamente também o próprio olhar que permitiu o registro e as possibilidades de leitura. Uma brincadeira que, como a Roma de Fellini descobre a si mesma pela polifonia de imagens estrangeiras que se estranham e se comungam simultaneamente, fazendo a cidade cidades que a tornam nacional e universal e, confusamente ela mesma, descobre a nação ou um sentido de nacionalidade na diluição da comunidade de Roma por olhares livres e abertos ao aconchego novo que provocam os clicares.
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sexta-feira, 15 de maio de 2009

15 anos do GREM - Projeto MEMÓRIA DO GREM

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Ainda nas comemorações dos 15 anos do GREM, este Blog divulga algumas de uma série de apresentações de exposições fotográficas feitas pelo Professor Mauro Guilherme Pinheiro Koury para a Agencia Ensaio, que reune um excelente grupo de fotógrafos documentais na cidade de João Pessoa, Paraíba, Brasil.
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A primeira Apresentação aqui publicada, intitulada Cumplicidades do Olhar Compartilhado, abaixo, foi feita a pedido da Agencia para acompanhar a exposição documental do projeto Cidadãos do Mundo, que reflete o cotidiano de crianças nas ruas de João Pessoa. Esta exposição aconteceu na cidade de João Pessoa no ano 2000 e de lá seguiu para diversas capitais de estados brasileiros e ganhou um percurso internacional.
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Cumplicidades Do Olhar Compartilhado

Mauro Guilherme Pinheiro Koury


A realidade fotográfica é sempre uma construção estética, amparada nas configurações do real de vários olhares. Olhares que fundam ao mesmo tempo em que recriam, em um movimento sempre constante, a constituição final do produto fotografia no público. A realidade presente na fotografia exposta é, assim, uma construção em permanente redefinição pelos olhares dos diversos observadores que a apreendem, e sobre ela dedicam um processo de reflexão e tomada de posição sensível e objetiva, ligada à curva de vida e o ponto de vista de cada um.
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É sempre uma construção social, por embaralhar, nos diversos olhares que a compuseram, singularidades imaginárias da constituição de um povo. Apresenta os elementos necessários à compreensão comum de olhares singulares sobre o mesmo conjunto e, ao mesmo tempo, institui a diferença pela especificidade que cada olhar possui pelas experiências diversas que o alinham a um núcleo comum, mas o faz também único, singular, sujeito de suas experiências, criador.
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Essencialmente simbólico, o jogo no qual o fotográfico se apresenta enquanto construção social revela a polifonia de possibilidades na constituição de um mundo comum, na expressão de Hannah Arendt no seu livro The human condition (Chicago, University of Chicago Press, 1970). Revela a multiplicidade de cumplicidades que faz o olhar único ser compartilhado como olhares simultâneos e comuns necessários à prática de uma sociabilidade.
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Revela, enfim, a sensibilidade do olhar que captura ângulos e recortes da multifacetada face do cotidiano fazer dos homens, onde se debruçam outras sensibilidades em olhares que observam o produto capturado e o remete a novas singularidades expressivas da reflexão em que se estabelecem as bases da compreensão e do pensamento.
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A fotografia de um grupo de fotógrafos da Agencia Ensaio, na cidade de João Pessoa, capital da Paraíba, apresenta com sensibilidade e apuro técnico a arte de captação multifacetada das manifestações de singularidades de uma sociedade e de experiências individuais de criação e vida nela presentes. Estes fotógrafos trabalham a fotografia como arte documental, cientes que são das construções imagéticas dos registros e de sua realidade como real fotográfico.
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Ciente da ambigüidade que provoca no olhar e no próprio ato fotográfico a fotografia, este grupo de fotógrafos se debruça em um projeto ambicioso e importantíssimo de documentação fotográfica sem fronteiras, a partir da região Nordeste do Brasil. Desde 1995 este grupo desenvolve um projeto documental da vida ordinária dos homens e mulheres comuns das pequenas comunidades do mundo ou perdidas no emaranhado dos centros urbanos mais importantes.
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O atual projeto Cidadãos do Mundo, - agora com exposição nesta capital e com exposições marcadas em várias outras capitais de estados brasileiros e na Alemanha, França e Suécia, neste ano de 2000, início do século XXI, - reflete não apenas crianças pobres e crianças em situação de rua na visão importante, porém, simplista da denúncia e da carência social pura e simplesmente, mas, crianças de e na rua em situação de vida. O infantil espetáculo do transformar cotidiano o grande palco da rua em espaço de vivência: onde exercitam brincadeiras, folguedos, festas, trocas, anseios e, também, desamparo, solidão, dor, além de sonhos, sobretudo sonhos.
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O lazer nos intervalos da labuta, o comportamento infantil nos folguedos e na dor são evocados, seja no mergulho ousado nas águas do rio e do mar, seja no desamparo de crianças solitárias e contemplativas em espaços abertos de concreto armado da modernidade.
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A fotografia parece, assim, revelar e esconder simultaneamente. Joga na e com a mistura de arte e realidade, onde o olhar reflexivo é capturado, primeiramente, como estético absolutamente sentimental sobre o processo de visão de uma realidade – a fotográfica, - na qual se debruça. As brincadeiras na praça de um menino e sua sombra, as colagens de sombra e gente confundidas no exercício do branco e preto para o olhar, que se surpreende até compreender, são exemplares na demonstração desse jogo que, com maestria, faz a construção fotográfica.
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O real da foto parece ser singularmente a realidade que a foto apresenta e que se mistura ao olhar que vê e na realidade imaginária das relações que fundam esse olhar, como uma curva de vida ao mesmo tempo particular e social.
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Este jogo esta presente no projeto Cidadãos do Mundo. Está representado na captura do sempre singular e sugestivo gesto infantil de olhar pelas frestas de portas, ou no rosto de criança travessa que se sobressai no buraco de uma lona. Encontra-se evocado nos carrinhos de madeira expostos à venda como que povoando a imaginação infantil no bric à brac da rica transformação popular de caixotes abandonados em brinquedos, ou na solidão e na tristeza infantil de crianças aconchegando-se a umbrais de portas comerciais fechadas de uma cidade preparada para mais um final de dia, revelando a dor, o abandono e a melancolia de relações injustas que exclui.
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A polifonia de recortes, de símbolos, de valores, dos significados intrínsecos atribuídos ao não percebido por ser banal ou por não estar ao alcance, e a universalidade e a globalidade do particular distante como singular local, complexificam o olhar que captura e o olhar que vê o objeto presente em uma realidade fotográfica sempre impactante de humanidade. O projeto Cidadãos do Mundo demonstra, enfim, a arte do registro fotográfico e a sua importância para o social e para o pensar as estruturas elementares da constituição desse social, na sensibilidade estética que provoca e evoca.
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Exercício fundamental, necessário, em um país carente de memória e com excesso de clichês como o Brasil.
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quinta-feira, 14 de maio de 2009

O GREM disponibiliza a Introdução à coletânea esgotada de Mauro Koury intitulada Imagens & Ciências Sociais (João Pessoa, Editora Universitária, 1998)

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A divulgação desta Introdução, neste Blog, faz parte das comemorações dos 15 anos de atividades do GREM.
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Comemore junto conosco os 15 anos do GREM!
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Introdução à coletânea de KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro, Imagens & Ciências Sociais (João Pessoa, Editora Universitária, 1998). Esta coletânea se encontra esgotada.
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O interesse dos cientistas sociais sobre o uso de imagens como instrumento ou objeto de pesquisa amplia-se e inicia, nesta segunda metade de década de noventa, sua fase de consolidação. Os anos oitenta indicam um intenso crescimento na pesquisa com ou sobre imagens, qualquer que seja sua natureza (fotografia, vídeo e outros sistemas), com grande produção dentro das mais diversas disciplinas a áreas temáticas das Ciências Sociais.
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Embora se possa afirmar que o uso de imagens acompanhou a pesquisa em Ciências Sociais desde os primórdios, a maior parte dos trabalhos com utilização de imagens, contudo, parece ter sido de natureza auxiliar à pesquisa. O emprego mais freqüente e antigo das imagens em Ciências Sociais parece ter sido como ilustração de texto (Moreira Leite, 1988:85) ou como prova documental.
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Desde o final do século XIX, por exemplo, a utilização de material imagético acompanha a pesquisa antropológica. Orienta uma tendência de investigação convencionalmente chamada de Antropologia Visual que, através de décadas, luta para firmar-se como campo próprio, enfrentando preconceito das demais antropologias que a viam apenas como um recurso técnico a mais ao trabalho de campo.
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Bronislaw Malinowski (1922), Margaret Mead e Gregory Bateson (1942), entre outros, utilizaram documentação visual como técnica de registro das culturas pesquisadas; como forma de (Fim da página 7) observar e conhecer a vida das comunidades estudadas, distantes espacial e culturalmente da sociedade ocidental. As imagens foram usadas não só como ilustração, confirmação ou prova, mas também como recursos não verbais capazes de abrir janelas para a compreensão de situações que escaparam da observação em campo.
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A documentação visual foi considerada como um processo imparcial de registro. Ao falar do uso da imagem, especificamente fotográfica, na pesquisa antropológica John Collier Jr. (1973: 1-10) assegura que a sua invenção trouxe aos homens a consciência do mundo como ele realmente era, permitindo a sociedade ocidental abandonar conceitos fantásticos sobre o próprio homem e em relação a fauna e a flora, esclarecendo e modificando a compreensão ecológica e humana (:4). Para ele, “em toda a vida moderna se percebe o efeito da fotografia como um aspecto da realidade. (...). A linguagem não verbal do realismo fotográfico é a mais entendida inter e transculturalmente. Esta facilidade de reconhecimento é a razão básica para a câmera ter importância antropológica” (:6).
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Ainda segundo Collier Jr., as imagens registradas mecanicamente, em especial o registro fotográfico, permitem um controle absoluto da memória visual do pesquisador, e das posições e identificações estabelecidas em uma determinada cultura, especialmente em uma situação de mudança cultural. São registros preciosos da realidade material, credibilizando o estudo etnográfico, ao possibilitar que outros analistas possam perceber, através da documentação imagética, “os mesmos elementos da mesma exata maneira” (:7) que o antropólogo que a realizou.
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No uso da imagem em antropologia, e nas Ciências Sociais de um modo geral, desde o seu início, foi enfatizado, - e suas discussões concentradas, - (n)as possibilidades do real espelhado da documentação visual. O que viabilizaria uma representação indiciária de valor absoluto (ou quase) de outros universos culturais.
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O papel das imagens nas Ciências Sociais, porém, nos últimos tempos, vem passando por uma resignificação. O que tem suscitado por parte dos pesquisadores, questões mais amplas que o mero aspecto indiciário das fontes imagéticas. (Fim da página 8)
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O realismo das imagens, embora ainda enfatizado em muitas pesquisas, começa a ser questionado. O papel da imagem apresentado como um dado natural e universal é, assim, colocado em discussão. Discute-se a ambiguidade da imagem, através da tensão inerente ao seu processo de criação e interpretação.
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Autores estrangeiros como Caldarola (1994), Wagner (1982), Henny (1986), Bourdieu (1965), Berger (1980), Piault (1985) e Burgin (1982), e brasileiros como Bittencourt (1996), Peixoto (1995), Koury (1994), Moreira Leite (1993), Feldman-Bianco (1995), Rial (1995), Samain (1995), entre outros, tem tentado um redimensionamento dos significados do uso das imagens nas pesquisas em Ciências Sociais, através da incorporação da interpretação da informação imagética no interior de uma estrutura de significações analítica. Onde a imagem significa, ao mesmo tempo, o olhar do criador e o olhar do espectador, e a interpretação é resultante desta interdependência, ou desta ambigüidade de olhares, associado ou não a um terceiro olhar que busca compreender os mecanismos sociais que desconstroem e reconstroem as informações transmitidas pelo intercruzamento dos diversos olhares.
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Sem negar o valor indiciário do documento visual, estes autores têm buscado significações mais profundas da relação entre a imagem e a teoria social. Procuram aprofundar e delimitar um campo teórico e metodológico próprio à análise visual.
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No Brasil, principalmente, esta busca tem se mostrado mais aguçada a partir dos anos noventa, quando os autores acima assinalados, junto a outros, intensificam os esforços de caracterização de uma ciência social visual, onde as imagens aparecem, mais claramente, como temática central dos estudos e mais enfática a busca de definição de um campo próprio para as pesquisas visuais. Estes esforços podem ser sentidos nos progressos dos grupos de trabalho ligados a imagem, criados por este núcleo de pesquisadores, junto a Associação Nacional de Pesquisa e Pós-graduação em Ciências Sociais (ANPOCS) e a Associação Brasileira de Antropologia (Associação Brasileira de Antropologia (ABA). Esforços, por sua vez, que tem se desdobrado em novos grupos de (Fim da página 9) trabalho de caráter regional e local, cobrindo todo o território brasileiro e ampliando o interesse e a demanda de pesquisadores para a temática.
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Só para se ter uma idéia, dos fins dos anos oitenta até os dias atuais foram criados e estão em funcionamento Núcleos, Oficinas e Grupos Permanentes de Ensino e Pesquisa ligados a imagem, em diversas universidades, ligados ou não a Pós-Graduação. Como são os exemplos do Núcleo de Antropologia Visual do Programa de Pós-Graduação em Antropologia Social da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; do Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Imagem, do Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal da Paraíba, e do Núcleo de Antropologia e Imagem da Universidade Estadual do Rio de Janeiro, entre muitos outros.
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Esta coletânea faz parte desse processo. Originariamente, a maior parte das contribuições presente nesta coletânea foi apresentada como comunicações na IV Reunião de Antropologia do Norte e Nordeste, através do grupo de trabalho sobre Antropologia Visual, por mim coordenado. Tem por finalidade uma primeira sistematização e divulgação das pesquisas e estudos que vêm sendo feitas nesta temática, bem como o desenvolvimento de um corpo teórico que possa auxiliar o diálogo entre o texto imagético e a teoria social.
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A coletânea está dividida em tres partes. A primeira parte é composta pelos trabalhos de Elisa Maria Cabral, Bertrand Lira e Mauro Guilherme Pinheiro Koury, e busca compreender as relações entre a imagem e a apreensão do real.
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Cabral reflete sofre o processo de criação, através das imagens captadas em vídeo durante a elaboração de um quadro do artista plástico paraibano Sérgio Lucena. Lira, por sua vez, enfrenta a questão da apropriação e compreensão do real pela fotografia, buscando traduzir algumas imagens fotográficas exemplares de autores diversos através do conceito de tipo ideal weberiano. Os dois ensaios de Koury, por seu turno, retratam a temática da morte e sua relação com a fotografia. (Fim da página 10)
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O primeiro trata da relação entre fotografia e sentimento, através do papel dos retratos de família no doloroso processo do trabalho de luto. O segundo, estuda fotografias de mortes violentas publicadas pela imprensa brasileira e internacional e a questão da indiferença no olhar que as observa.
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A segunda parte trás análises sobre as imagens do urbano. Sobre a fotografia a as visões da cidade. É formada por artigos de Mauro Guilherme Pinheiro Koury, Sylvia Couceiro Bompastor e Cristina Barreto.
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O primeiro artigo de Koury reflete sobre a fotografia e a questão da pobreza no Brasil. Bompastor, discute as representações da cidade do Recife (Pernambuco) através das fotografias do início do século. Barreto, por sua vez, analisa as imagens da revista Era Nova e o imaginário construído sobre a cidade da Parahyba, hoje João Pessoa (Paraíba), nos anos vinte deste século. Koury, a seguir, trabalha com a relação fotografia e cidade através de uma análise das crônicas e das fotografias de Walfredo Rodriguez, fotógrafo, cineasta e escritor paraibano.
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A terceira parte, por fim, reflete sobre os usos da imagem no ensino e na pesquisa em Ciências Sociais. É formada por artigos de Cláudia Fonseca, Beatriz Goes Dantas e Carmem Rial.
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O artigo de Fonseca, aborda os usos do material visual, especificamente videográfico, no treinamento de estudantes de graduação em técnicas de pesquisa em Ciências Sociais . O artigo de Dantas discute a questão da designação social a ser dada ao material visual resultante da pesquisa de campo, depois de cumpridas as funções instrumentais da pesquisa. O artigo de Rial, por sua vez, discute o ato fotográfico no trabalho de antropologia, comparando-o com o de outras vivências fotográficas (as do turista e a dos jornalistas), no interior de uma pesquisa junto a uma comunidade de descendentes açorianos na Ilha de Santa Catarina.
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O pensamento dos autores presentes na coletânea oferece avanços significativos na busca do resgate e da reconceituação das tradições no uso de imagens pelas Ciências Sociais do agora. É um livro indispensável àqueles atinados com a problemática (Fim da página 11) contemporânea das interrelações entre imagem e teoria social. Mais do que trazer soluções esta coletânea busca documentar possibilidades de enfoques e de opções enfrentadas no trabalho de pesquisa com imagens na atualidade de Ciências Sociais brasileira.




Mauro Guilherme Pinheiro Koury
Organizador




Bibliografia


BERGER, John (1980). About Looking. New York: Pantheon Books.

BITTENCOURT, Luciana (1996). Spinning Lives. Lanhan: University Press of America.

BOURDIEU, Pierre et al. (1965). Un Art Moyen: Essay sur les usages sociaux de la photographie. Paris: Editions de Minuit.

BURGIN, Victor (ed.). (1982). Thinking Photography. London: Macmillan Education.

CALDAROLA, V.J. (1994). Embracing the Media Simulacrum. Visual Anthropology Review 10 (1): 66-69.

COLLIER Jr., John (1973). Antropologia Visual: a fotografia como método de pesquisa. São Paulo : EPU/Edusp.

FELDMAN-BIANCO, Bela (1995). Reconstruindo a Saudade Portuguesa em Vídeo: Histórias orais, artefatos visuais e tradução de códigos culturais na pesquisa etnológica. Horizontes Antropológicos 2: 59-68.

HENNY, Leonard (1986). Theory and Practice of Visual Sociology. Current Sociology 34 (3): 198-215.

KOURY, Mauro Guilherme Pinheiro (1994). Caixões Infantís Expostos: o problema dos sentimentos na leitura de uma fotografia. João Pessoa: (Série Debates 31), MCS/UFPb.

MALINOWSKI, Bronislaw (1922). Argonauts of the Western Pacific: An account of Native Enterprise and Adventure in the Archipelagoes of Melanesian New Guinea - Robert Mond Expedition to New Guinea, 1914-1918. London: Routhedge e Kegan.

MEAD, Margaret e BATESON, Gregory (1942). Balinese Character. New York: New York Academy of Science.

MOREIRA LEITE, Miriam L. (1993). Retratos de Família: Leitura da fotografia histórica. São Paulo: Edusp.

PEIXOTO, Clarice (1995) O Jogo dos Espelhos e das Identidades: as observações comparada e compartilhada. Horizontes Antropológicos 2: 69-84.

PIAULT, Marc-Henri (1985). Anthropologie et Cinéma. Encyclopedia Universalis: 442-449. Paris. (Fim da página 12)

RIAL, Carmem (1995). Por uma Antropologia do Visual Contemporâneo. Horizontes Antropológicos 2: 93-100.

SAMAIN, Etienne (1995). “Ver”e “Dizer”na Tradição Etnográfica: Bronislaw Malinowski e a fotografia. Horizontes Antropológicos 2: 19-48.

WAGNER, Jon (1982). Images of Information: still photography in the Social Sciences. Beverly Hills: Sage Publications.

WRIGHT, Terence (1992). Photography: Theories of realism and Convention. In, Elizabeth Edwards (ed.). Anthropology and Photography. New Haven: Yale University Press. Pags. 18-31. (Fim da página 13)
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quarta-feira, 13 de maio de 2009

LUTO E SOCIEDADE: Resumo de um artigo sobre a cidade de João Pessoa

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Durante o processo de construção da pesquisa Luto e Sociedade, que fez um estudo sobre o comportamento contemporâneo do brasileiro de camadas médias e urbano nas 27 capitais de estados brasileiros, e culminou com o lançamento dos livros Sociologia da Emoção: O Brasil urbano sob a ótica do luto (Petrópolis, Vozes, 2003) e Amor e Dor: ensaios em antropologia simbólica (Recife, Bagaço, 2005), foram feitas várias monografias sobre as representações sociais em relação ao luto e sobre a relação luto e fotografia para cada capital trabalhada.
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Neste momento é publicado no Blog o resumo e o abstract do artigo sobre a capital da Paraíba, a cidade de João Pessoa, intitulado: Representações Sociais sobre a Fotografia Mortuária na Cidade de João Pessoa, PB. Este artigo foi escrito pelo autor da pesquisa, Professor Mauro Guilherme Pinheiro Koury, e publicado na revista Conceitos e se encontra completo à disposição dos leitores na internet no site: http://www.adufpb.org.br/publica/conceitos/06/art_19.pdf

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Abaixo o resumo em português e inglês do artigo.

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Título: Representações Sociais sobre a Fotografia Mortuária na Cidade de João Pessoa, Paraíba, Brasil.
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Autor: Mauro Guilherme Pinheiro Koury
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Resumo: Como responderiam a questão do uso da fotografia mortuária os habitantes urbanos moradores das capitais dos estados brasileiros no final do século vinte, é a pergunta principal deste artigo, tendo como limite geográfico a cidade de João Pessoa, capital do estado da Paraíba. Nele se busca traçar um perfil do comportamento urbano brasileiro e, aqui, especificamente, de João Pessoa, sobre a morte e o morrer no final do século vinte, bem como o papel da fotografia na lapidação e direção desse contorno.

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Title: Social Representations on the Mortuary Photograph in the City of João Pessoa, Paraíba, Brazil
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Author: Mauro Guilherme Pinheiro Koury
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Abstract: As the urban inhabitants of the capitals of the brazilian states in the end of twenty century would answer the question of the use of the mortuary photograph, it is the main question of this article, having as geographic limit the city of João Pessoa, capital of the state of Paraíba. This paper searchs to trace a profile of Brazil’s urban behavior on the death and dying in the end of twenty century, as well as the role of the photograph in the stonecutting and route of this contour.

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PALAVRAS-CHAVE
Fotografia Mortuária;
Álbuns de Família;
História dos Costumes;
Sentimento e Sociedade;
Individualização;
João Pessoa, Paraíba, Brasil;
Representação Social;
Morte e Morrer;
Processo de Luto.

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quarta-feira, 6 de maio de 2009

O GREM recebe o prêmio através do CCS - CCHLA - UFPB, de Melhor Monografia Orientada no Ano de 2008

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É com prazer que transmitimos a informação de que mais um trabalho de orientação do GREM foi premiado no Curso de Ciências Sociais (CCS) do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes (CCHLA) da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), através do Prêmio Florestan Fernandes de Monografias, para o ano de 2008.
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A monografia vencedora do PRÊMIO FLORESTAN FERNANDES DE MONOGRAFIAS 2008 foi a intitulada “Sociabilidade, medo e estigma no contexto urbano contemporâneo: o bairro do Roger na cidade de João Pessoa - PB”, de Ricardo Bruno Cunha Campos, orientada pelo Professor Mauro Guilherme Pinheiro Koury.
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Ricardo, estudante de Ciências Sociais da UFPB, foi estagiário da pesquisa "Medos Corriqueiros e Sociabilidade", em desenvolvimento no GREM, sob a orientação do Prof. Mauro Guilherme Pinheiro Koury, durante os anos de março de 2006 a março de 2008. Durante o estágio desenvolveu sua monografia sob o bairro do Roger, um dos bairros estudados pela pesquisa Medos Corriqueiros, através de uma bolsa PROBEX-UFPB, defendendo a sua monografia junto ao Curso de Ciências Sociais, por fim, no mês de março de 2008.
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domingo, 3 de maio de 2009

15 anos do GREM - Projeto MEMÓRIA VISUAL DO GREM


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LOGOTIPOS DO GREM
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Como contribuição à Memória Visual do GREM, se mostra a evolução dos logotipos deste Grupo de Pesquisa desde o seu início, em 1994.

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Primeiro Logotipo

1994 - 2000

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Segundo Logotipo

1996

(Conviveu com o primeiro até o ano 1998)


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Terceiro Logotipo - 1998

(Conviveu com o primeiro logotipo até o ano de 2000)



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Quarto Logotipo do GREM - 2000 a 2004

Ainda em uso na abertura do site do GREM

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Quinto e atual logotipo do GREM

Criado em 2004

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Vamos fazer um banco de dados com a Memória Visual do GREM. Mandem fotografias, vídeos, imagens diversas relacionadas com os trabalhos realizados no GREM!
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Alunos e ex-alunos; orientandos e ex-orientandos; pesquisadores; estagiários: não deixem de enviar material para esta história visual.
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Vamos comemorar os 15 anos do GREM colaborando com este Banco de Imagens: "Memória Visual do GREM!
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sábado, 2 de maio de 2009

- 15 anos do GREM - Mais uma contribuição à Memória Visual do GREM -

Lançamento do livro "Amor e Dor: Ensaios em Antropologia Simbólica"
(Recife, Edições Bagaço, 2005)
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Dando continuidade as comemorações dos 15 anos do GREM, é colocada no ar mais uma contribuição à memória visual deste grupo de pesquisa.
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Nesta nova seleta de fotografias se encontra retratado o lançamento oficial do livro "Amor e Dor", de Mauro Guilherme Pinheiro Koury.
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Este lançamento aconteceu em 2005, nos jardins da Editora Bagaço, no bairro de Casa Forte, na cidade do Recife, Pernambuco.
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Não deixe de enviar suas fotos com momentos relacionados aos 15 anos do GREM para a ampliação do Banco de Dados sobre a Memória Visual deste Grupo de Pesquisa!!!
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Coopere com a construção visual da trajetória do GREM!
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Adquira o seu exemplar diretamente através do GREM, pelo e-mail grem@cchla.ufpb.br. O seu exemplar pode ser comprado, também, através das Edições Bagaço online; através da livraria cultura; através da livraria Saraiva; através da livraria imperatriz, ou através de outras livrarias espalhadas pelo país.
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Segue, abaixo, o álbum de fotos em forma de vídeo:
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Deixe um comentário. Não deixe de cooperar com a Memória Visual do GREM!

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sexta-feira, 1 de maio de 2009

MEMÓRIA VISUAL DO GREM

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Como já comentado várias vezes neste Blog, o GREM completa, neste ano de 2009, 15 anos de atividades initerruptas de pesquisa, extensão e orientação.
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Como também já foi falado anteriormente, é necessário preservar a Memória Visual do GREM e, para tal, se pede aos alunos, ex-alunos, bolsistas, voluntários, pesquisadores e amigos deste grupo de pesquisa, que cooperem com este empreendimento enviando fotografias em diversas situações: de trabalho em campo, das reuniões de pesquisa, das apresentações em encontros, seminários, congressos, das defesas de teses, dissertações e monografias, das festas, dos lançamentos, e das mais diversas atividades do/no grupo para permitir a composição de uma memória visual destes 15 anos do GREM!
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As fotos farão parte do ACERVO VISUAL do GREM.
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As fotografias podem ser enviadas diretamente para o e-mail do GREM: grem@cchla.ufpb.br.
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O GREM conta com a ajuda de vocês para estabelecer uma memória visual permanente de suas atividades.
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Uma das primeiras tarefas desta Memória Visual é a realização de uma grande exposição fotográfica, no final deste ano de 2009, sobre os 15 anos do GREM.
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quarta-feira, 29 de abril de 2009

Emoções, Cultura e Sociedade

O GREM e a Editora CRV lançam nos próximos meses o livro "Emoções, Sociedade e Cultura" de Mauro Koury
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Deverá ser lançado em breve, até o mês de junho próximo, pela Editora CRV de Curitiba, Paraná, o mais novo livro do Professor Mauro Guilherme Pinheiro Koury, intitulado: Emoções, Sociedade e Cultura.
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Neste livro, o autor amplia e atualiza as reflexões contidas e iniciadas no ensaio anterior, que se encontra esgotado: 'Introdução à Sociologia da Emoções' (João Pessoa, Manufatura/GREM, 2004), sobre a Sociologia das Emoções e os debates cotemporâneos no interior e no entorno deste campo disciplinar.
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Não deixe de fazer uma reserva imediata do seu exemplar diretamente do site da Editora CRV, no endereço eletrônico: http://www.editoracrv.com.br/
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